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domingo, 15 de abril de 2012

Hiato





A vida
o momento
um hiato.

Insuportável esse intervalo entre o nada e coisa nenhuma.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Névoa



 A vida entre parênteses.
Espessa névoa encobre
o antes e o depois.
Memórias que não querem
memórias que não podem ser.
Sonhos que não sabem
sonhos que não admitem viver.
Dilacerante angústia essa
de o agora como única saída.
E parece que é pra sempre.

terça-feira, 10 de abril de 2012

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Se assim fosse...








Ah, se a vida fosse um conto de fadas!

 O príncipe no cavalo branco
Na mais certa hora
De livrar a bela donzela
De toda sorte nem tanto!

A fada gloriosa madrinha
No mais exato momento
De apontar a sua varinha
De afastar todo tormento!

Ah, se a vida assim fosse
Será que seria?

domingo, 8 de abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O que não sendo foi...





Às vezes, aquilo que em não sendo - foi
pode ser tanto, mas tanto,
que nos embriaga com a ideia do que poderia ter sido.

domingo, 1 de abril de 2012

Abril





Diante do sol que adentra a janela
nessa manhã de domingo
eu me curvo diante do tempo
e saúdo com tudo que é lindo
esse Abril que promete a frescura do vento
e o livrar-me de toda mazela.

Adeus, comprido e sofrido Março
ainda és meu amigo, ainda és.
Mas me deste à alma muito cansaço.

Despedidas






E todo adeus é triste, todo tipo de adeus... e adeus a todo tipo de coisa. 
Até daquilo que não tem mais como florescer. 
Até daquele sentimento que te trouxe dor. 
Porque quando a gente tem que se despedir é porque aquilo já nos compõe...
é sempre uma parte, um pedaço, uma fatia de nós que se vai. 

E é preciso que vá.

sábado, 31 de março de 2012

Canção pra celebrar Abril







Abril.
Abriu...
A porta fechada
A janela emperrada
A emoção enclausurada
A verdade enquadrada.

Abril.
Abriu...
A flor em botão
Espaço no coração
Um buraco pro não
E pra descrença o portão.

Abril.
Abriu....
A fresta pra esperança
O baile-vida que dança
A estrada que se alcança
Um baú pra toda lembrança.

Abril.
Abriu?

segunda-feira, 12 de março de 2012

Aprender a olhar...





Pode-se aprender a ver, em tudo, um bocadinho de beleza.
Depende de para onde a gente olha.
Há beleza no encontro, no desencontro, no reencontro.
Depende de como a gente olha.
Pode-se plantar um jardim todo novo onde não havia nem sinal de flor.
Pode-se preparar a terra para outras mudas e sementes.
Pode-se plantar sementes e mudas de substâncias e essências nunca vistas em jardins desencantados e murchos.
Depende da alma com que se olha.
A beleza não se dá ao olhar descuidado. É preciso um bocado de força e de coragem para cuidar do que se vê.
Aprende-se um pouquinho a cada dia, porque a vida não se oferece pronta. É preciso a lida e a luta.



domingo, 11 de março de 2012

O que (não) passou





Eu me procuro no passado.
Por vezes, o que passou, é um lugar quentinho pra ser feliz....
Por vezes, a estrada de volta é o melhor caminho...
E mesmo que assim não seja, quando a gente se perde, sábio se faz procurar as pistas do caminho.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sem título


Pronto. E tenho um sentimento novo que inaugurastes, outra vez, em mim: mágoa.
Tens o trofèu. 
Sem celebração e sem vitória.
Apenas a tristeza doída. 
Apenas.




Assim seja





Aos Céus só um pedido: coragem para que o meu coração seja límpido como riacho cristalino, que as águas turvas não o arrebatem do curso das águas que confiam.





Prece da manhã





Oh Senhor!
Envie ajudinha extra
Provimentos de emergência
Batalhão reserva
Qualquer coisa pra lutar...
Hoje será penitência
e não posso fraquejar!


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Luz azul




Desenhei uma luz azul
e mantenho-na diante do olhar.
Embebedo minha pele de Light Blue
e o perfume alerta-me: caminhar!
A estrada é longa e se adianta.
Para que me serve a estrada?
Para esperançar!



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sobre o meu silêncio



Como quem contempla o sol
A se esconder no horizonte
Como quem contempla o mar
A beijar a areia à espera
Como quem contempla a chuva
Que cai sem pedir licença
Respeitosamente
Silenciosamente
Resignadamente
Contemplo a vida tua.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Salvação




A poesia me salva. 
Do cansaço da alma, da desistência, do abandono de mim. 
É como luz que não me deixa apagar.




domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sem titulo II




Assim como alguns bichos que se camuflam, o mimetismo será minha arma. 
Como o bicho-pau que, diante do perigo, permanece imóvel e recolhe as patas junto ao corpo, misturando-se aos gravetos das árvores.
Tentarei, como ele, permanecer indistinta ao mundo que me cerca. 
Serei um alvo de impossível reconhecimento.
Assim como a lua cheia, na sua fase mais bela e esplendorosa, se esconde durante o eclipse, entrarei na região da umbra.
Aos que me estranharem, peço perdão. Aos que julgarem egoísmo e prepotência, peço compreensão: é um apelo da razão e, contraditoriamente, do instinto. 
Ultimamente tenho falado demais, mesmo em estado de sobriedade. Porque já não consigo manter a polidez das frases amareladas que não causam espanto. Porque já não posso me manter impassível diante dos sentimentos que gritam. Porque estou em perigo.
Assim como a lagarta se mantém em seu casulo até o momento da liberdade, tomarei para mim uma pele sobreposta que me mantenha protegida.
Preciso criar asas coloridas.
Como tropas em desvantagem, retiro as bandeiras.
Instauro em meu mundo, ditadora de mim mesma, o toque de recolher.
Porque já não fico com os olhos úmidos, mas derramo lágrimas do corpo todo.






quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Enigma






Homem.
Sim. Homem como o meu corpo te percebe.
Nunca compreenderás a exata proporção do que vai em mim.
É de uma grandeza indecifrável.
E não se rende à compreensão.
Seria preciso sentir
na pele
nos poros
nas entranhas.


Foto> Juliana Cunha

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Luta

Eu fui
Desbravar a vida.
Abrir estrada
no escuro e na lida.
Espada e mão calejada
floresta intensa
mata densa.
Eu fui
Construir ponte.
Pinguela improvisada.
Achar a fonte
Beber de mim.
Eu fui
Povoar a terra.
Erguer mais simples morada
Procurar o ouro
Manejar a enxada.
Eu fui
Enfrentar a selva.
Sem armas, mas flores.
Nascida pra guerra
com todas as dores.
Eu fui.
Te levo comigo.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Cansaço








O que tenho em mim é cansaço.
Um cansaço absurdo de nada, de tudo e coisa alguma.
Apenas um CANSAÇO maiúsculo
de paixões intensas
de sentir o sem sentido
de choro doído ao entardecer
de sonhos impossíveis ao adormecer
da solidão - vão negro em mim.
Absurdamente
Tempestuosamente
Cansada.
Só e tudo isso.

foto: Juliana Cunha

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Re-colhimento





Recolhimento
Re-colhimento
Re-colher
Colher o que fui
Procurar a semente
Preparar a terra
Plantar o futuro
Aguardar a safra
Esperar o incerto
A semente de agora
Transgênica
Transformada
Pelo vento
Furacão
Turbulência
Será sol
Será mel
Será chuva
Será fel
Será flor
Será espinho?
Nebuloso
Caminho.

Foto: Juliana Cunha


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Soneto do Amor Perdido






Você não soube me amar, certamente
pelo redemoinho do mar incerto.
Você escolheu não  amar, exatamente
 quando o amor fez-se nu no deserto.

Você decidiu não amar, justamente
quando a beleza se deu mais clara.
Você não pôde amar tão somente
porque amor a dois é coisa rara.

Resta-me agora o amor perdido
E o coração pleno de cansaço
De um sentir tudo tão sem sentido.

Resta-me a redenção na guerra
A bandeira e a espada de aço
Perder é doce e renasce a terra.














sábado, 4 de fevereiro de 2012

Tempo





Pela manhã
Abraço o tempo
Ao entardecer
Abraço o tempo
Pela madrugada
Abraço o tempo.
Jamais pensei existir
Em substantivo abstrato
Algo tão corpóreamente concreto. 
É amigo que me salva...






foto: Jaqueline Guimarães











quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ternura









Ah....hoje eu decidi a coisa mais bela da minha pequenez de vida.
Eu decidi amar sem espera, sem esperança, sem recompensa.
Como é belo isso.
Como é paz, quietude, mansidão.
Como me faz melhor como gente essa experiência amorosa abnegada e livre.
Como pássaro azul voando em flor. Sem exigência.
Como é belo isso.
Eu contemplo o olhar atentamente, como se fosse a primeira vez.
E não preciso pedir perdão por amar demais.
É certo que às vezes eu choro.
O choro que lubrifica o coração. Assim ele jamais virará pedra.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vende-se, troca-se ou doa-se um coração.






Vende-se, troca-se ou doa-se um coração.
Um coração calejado, destroçado, pintado de curativos.
Insensato. matreiro, inconsequente.
Idealista, arrebatado, perigosamente sincero.
Um coração à moda antiga, quando a verdade valia o fio do bigode.
Feito de gelatina cor de amora e maria-mole com corante paixão - se recusa a virar pedra, gelo, ferro.
Nunca velho...sempre criança, pronto para aquele olhar de quem vê pela primeira vez.
Coração cego, surdo e mudo. Só sente o que pensa que existe.
Se recusa a perceber a maldade, a indiferença, a ilusão.
Vende-se, troca-se ou doa-se um coração.
Aceita-se na troca outro qualquer, menos o que já cristalizou - e sem armaduras.
Outro qualquer sem tanta história de queda.
Outro que caiu menos, que não subiu em árvores gigantescas fazendo pouco da altura.
Outro que nunca se jogou no precipício fazendo pouco do tamanho do vão escuro.
Vende-se, troca-se ou doa-se um coração
Que tenha pelo menos um pedacinho em branco
Onde se possa desenhar de novo o juízo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Nudez







Há insensata paz em desnudar a alma
Em desnudar-se
Corpo e espírito.
A paz dos que não trazem mistérios
Ou segredos
Palavra sem casca
Fratura exposta
Veias a olho nu.
Assim,
Sem vestes ou armaduras
É preciso ir.
Ir corajosamente
porque a verdade às vezes não basta.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Historinha




Um coração - dramático, arrebatado, sem aviso
Declara em tom grave, intenso:
_ Morreria pelo seu sorriso!
Os lábios respondem
Com inacreditável parcimônia:
_ Obrigado por me dizer.
Está feita a cerimônia.
Coração sem juízo - coitadinho
Fala o que a boca sente
Sente o que a boca fala.
Sem medo, sozinho.

Foto: Juliana Cunha

domingo, 22 de janeiro de 2012

Verbos






Despejar o vinho
Esvaziar o copo
Livrar o vaso das flores
Virar porta-retratos
Deletar mensagens
Rasgar bilhetes
Apagar memórias
Zerar quilometragem
Lavar a estrada
Viver sem nada
Exausta.

Foto: Juliana Cunha





sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ora vai, ora vem





Há despedidas que demoram uma eternidade.
É o coração ensaiando passos de dança
Ora vai, ora vem...
Hora vai, hora vem...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Beleza de gente



Se eu pudesse ter um luxo a mais nessa vida, tenho certeza de que  me daria uma pessoa.
Não uma pessoa qualquer, mas alguém com muita objetividade, vocação para a praticidade, organização metódica e muita, muita racionalidade.
Pagaria muito bem a este ser (se pudesse fazê-lo e se o encontrasse disponível).
Seria alguém para fazer coisinhas que detesto mas que nenhum mortal pode deixar de cumprir se desejar sobreviver nessa selva de pedra.
Tenho uma lista dessas tarefinhas ordinárias: ir ao supermercado (gosto é de ir na feira e comer pastel no fim, mas não tenho tempo), pagar as contas do mês, ir ao banco falar com o gerente, controlar o orçamento, pensar nas coisas que tenho que comprar, ir ao caixa eletrônico, etc.
Como todo mundo, precisei ir a esse negócio chamado caixa eletrônico. Fim de ano é uma festa: a gente vai comprando, gastando, presentinho pra cá, comidinha pra lá, pequenos gostos para alegrar o espírito da alegria que ronda essa época. Depois, no início do outro ano, o calendário virado nos diz que na festa da vida há outras coisas a enfrentar.
Fui lá me encontrar com essa máquina e me deparei com uma beleza de gente: a Dona Luzia. Não, eu não a conhecia. Mas ela se deu  a conhecer um pouquinho naqueles breves minutos.
Tem gente que parece levar o coração escancarado no peito, mesmo sob os tecidos que o cobrem, mesmo sob a pele que o aconchega. A Dona Luzia deve ser assim. Ao menos foi assim que eu a percebi.
Enfrentar foi o verbo que ela pronunciou quando se deu conta da minha presença.
"É minha filha, é preciso enfrentar os números que sairão nesse papel. Não tem jeito não, a vida obriga".
E eu me vi na Dona Luzia.
Começamos a traçar nosso diálogo sobre os enfrentamentos práticos da vida e a nossa comum ojeriza por tais coisinhas que rondam o chacoalhar de cada dia.
Lembrei agora dessa beleza de gente, dessa ternura de mulher. Desconfio que, como eu, ela tem coração feito de poesia. Tenho cá com os meus botões que, assim mesmo como eu, a Dona Luzia deve ter uma aptidão danada para o platonismo, para enxergar no que vê o invisível que ninguém vê.
Lembrei e fiquei arrependida de não ter perguntado uma coisa para essa pessoinha que parecia flor que nasce sozinha no meio do concreto.
"Dona Luzia, como a senhora fez  para conservar essa doçura toda até aqui e não endurecer esse coração de flor?"
Perdi a chance. Generosa como me pareceu, teria me ensinado. Agora, como estive desatenta e não agarrei o minuto, parece que a vida ficou me olhando ir embora. E eu continuo gostando nadinha dessa máquina que me obriga a enfrentar as coisas pequenas desse mundo.
E meu coração continua incorrígivel. Tem jeito não.

foto: Juliana Cunha

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

E um novo caminho desponta....





Tenho dois encontros imperdíveis esta semana.
Sessenta e alguns jovens celebram o terminar de uma fase e o começo de tantas outras.
Sessenta e alguns deixam esse ponto da estrada e começam a desenhar novos rumos.
Lembro-me de quantas vezes, entre conversas emocionadas, conselhos, puxões de orelha e risadas, eu lhes disse: muito brevemente trocamos de lugar e então...."o bicho pega"!
Era uma irreverente maneira de mostrar que esse dia chegaria e que cada minuto do tempo era importante demais para se perder. Coisas e conversas de quem ensina.
O que eu lhes diria hoje?...o que eu lhes digo aqui, nessas precárias linhas.
Vão...desenhem a melhor paisagem que conseguirem. Não economizem alma.
Desenhem suas próprias águas, construam seus barcos. Mergulhem em águas outras também...mas sem nunca negar a essência daquelas que guiam o seu espírito.
Lembrei-me de uma historinha, uma metáfora que compartilhei com tantos deles em muitos  momentos. Existem dois barcos, um fortemente iluminado e repleto de gente, conhecida ou não. Rotas previamente e exatamente traçadas. Recursos e ferramentas mais que consolidadas. Cheio de conforto e aparente sossego. Nos sentimos quentinhos e aceitos.
Outro, com parca luz, pouco povoado. Em construção. A rota? Em processo, sendo delineada a cada instante no viver da vida e no encontro com o outro. Sem muitas cartas marcadas e manual de utilização. Conforto apenas para o momento necessário e muita, muita inquietude....Nos sentimos aqui sempre em eterna busca.
Qual escolhemos? Parece óbvio? O que nos define?
Enfim, o que nos define são os princípios que afirmamos para a viagem. Se definimos conforto e sossego....se definimos luta e inquietação...
Meus caríssimos amigos-alunos. Escolham sempre aquilo que não lhes retire a essência do que vocês mesmos definiram para si.
Mais do que ensinar a ensinar, eu gostaria de ter lhes dado apenas uma lição, quiçá pelo exemplo: tenham e ensinem gerações a ter êxtase na alma.



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Somos igualmente diferentes





Essa manhã laranja querendo salvar o céu do cinza.
Esse rei que promete fazer do dia o seu reinado.
Esse canto dos pássaros que quebram o silêncio do meu mais interno barulho.
Tudo isso e nada mais do que isso plantou em mim essa flor de pensamento: somos igualmente diferentes. E quanta beleza reside em três palavras!
Lembrei-me do que mais me agrada quando estou na grandeza de Sampa, em plena Avenida Paulista ou Viaduto do Chá: ver (não com os olhos, mas com o corpo todo) a singularidade de cada um que por ali transita.  Também fiz muito essa viagem sentada nas estações ou vagões do metrô.
Quanto maior o lugar, mais tesouro de gente tem. É a vida em pleno milagre. É a vida correndo e adoro vê-la em movimento.
Somos igualmente diferentes.
O que parece igual em cada um é apenas metáfora. O que faz com que pareçamos iguais é apenas o desejo traduzido de quem nos vê.
O  mais difícil exercício é olhar o outro com o corpo todo, com tudo que temos para ler o mundo, mas despindo-se dos nossos sonhos de gente. Cada um é como é. Nenhuma vida cabe no nosso sonho de vida. Cada um cabe a si próprio.
Somos igualmente diferentes.
Temos o direito de sermos diferentes quando o desejo de igualdade como condição nos desfaz. Temos o direito de sermos iguais quando o desejo do diferente como rótulo nos submete.
E eu, cada dia, cada manhã laranja ou cinza, quero explorar mais fundo esse mergulho: descobrir em cada outro do meu dia a riqueza que lhe pertence e o torna único. Despir-me dos meus sonhos de gente em cada encontro com gente de verdade.
Eu te convido. Ah, valerá cada segundo de você.

foto: Daniel Jarr


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ausência

                                                         
O nada.
Como atirar-se em precipício - vão sem fim
Como quarto escuro - sem som e sem silêncio
Como arco-íris de faixa só - transparente
Como caixa de lápis - sem cor.
Nada.
Nem dor.

foto: Jesse Therrien

domingo, 15 de janeiro de 2012

sábado, 14 de janeiro de 2012

Delicadeza




O dia me trouxe a lembrança da delicadeza da flor. Da ternura que transborda da sua cor, da sua textura, da fragilidade das pétalas. Do toque sensível, da fugacidade da beleza.
O dia me trouxe a ideia de que todos podem sentir esse êxtase diante de uma ternura de flor. Poucos, entretanto, sabem cuidá-la. A flor se ressente de toda forma de descuido: murcha, seca, dissolve-se.
Assim como ela, o verdadeiro sentimento. Aquele que nutrimos, sincera e incondicionalmente, pelo outro. Nada exige, mas há que se tocar com leveza para preservar a beleza.
A quem nos sente tudo pode ser dito. Quem nos porta dentro de si com verdadeira afeição, seja qual for, admite sempre o toque honesto, franco e comovido da verdade.
A verdade generosa sempre há de cultivar a flor. De fazê-la bela, ainda que momentaneamente triste.
O sentimento e a flor: dois seres da mesma essência.
A flor e o sentimento: finos fios de vidro a perfumar nossos dias.

Bela e provisória





Sabem o que é belo na vida? A sua provisoriedade.
Nada nos é dado prever com certeza dessas absolutas e sem margem de dúvida.
O imprevisto pode vir com dor, mágoa, tristeza, incompreensão. Pode vir também com alegria, alívio, esperança. Não importa.
O que vale mesmo é que a vida, a cada surpresa, nos aponta uma estrada. Às vezes, porque o coração mergulha na dor, não vislumbramos as flores, mas elas continuam lá. A vida não nos nega beleza.
Um gesto, uma frase, um olhar. Um abraço, um telefonema, uma mensagem. Um encontro, um desencontro, um recado explícito ou não. Pequenas curvas que podem reconstruir estradas.
Sabem o que é belo na vida? As estradas nunca se dão prontas. É preciso escolher cada florzinha, cada pedrinha, cada pássaro que há de pousar.
Tudo está lá...mas o nosso livre arbítrio escolhe o que vê. Escolhe o que deseja.
Se o coração ainda sufoca no escuro, muitas vezes os olhos se desorientam. Não tem problema não, ele pode ficar quietinho, sozinho, encolhidinho...só um pouquinho.
A luz virá. Mas não virá de lanterna alguma que alguém lhe empreste.
A luz virá de um botãozinho que temos cá dentro. Virá quando, nós mesmos, decidirmos apertar o botão.
Pode ser hoje. Como diz o Drummond: Pode ser. Que seja!


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Concretude

Há dias em que um vazio intenso percorre o corpo e a alma. Dias em que descobrimos a fragilidade dos pilares nos quais ancoramos nossos desejos, sonhos e planos.
Há dias em que nos descobrimos sós. Dias em que percebemos que o tudo que nos sustenta tem o sopro do vento como âncora.
Há dias em que nos damos conta de que os espaços podem ruir a qualquer tempo. Dias em que olhamos o tudo que temos e vislumbramos o nada.
Dias em que conseguimos enxergar o invisível que criamos aqui, dentro do peito, cheio de fumaça e névoa.
Nesses dias, como hoje, é preciso esboçar um novo desenho. Feito de carvão e pedra.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Palavras não-ditas

O que diria hoje?
O que diria caso, por um milagre, fosse possível dizer-lhe?
Diria que eu não disse ...
E as palavras se debatem tentando escapar.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Gente que mora em mim

Tem gente de todo jeito. E todo jeito de gente é jeito bom de alguém pra alguém.
Tem gente que me acalma, que tem o poder divino de me abraçar à distância. Não me é dado conhecer esse mistério. Pensando bem , perderia a graça toda da vida saber o porquê. É porque é.

Quando o meu corpo deixar de existir, se houver esse encontro com o Dono dos destinos, minha alma será atrevida o bastante para pedir que me explique porque tem gente que a gente encontra e nunca mais quer desencontrar.

Tem gente que ocupa um lugar tão quentinho dentro de mim que a vontade é proteger esse cantinho de todo mal, de toda dor. Tem gente que parece dentro de nós com tudo aquilo de que gostamos mais fora de nós: o livro predileto, a música de alento, o recanto preferido da casa.

Não precisa fazer nada não. Tem gente que mora em mim e nada se explica. É porque é.

Vou cuidando desse cantinho, planto flores, respingo perfumes. De vez em quando, porque sou imperfeita , deixo crescer uma ou outra erva daninha. Mas no final, é em mim que dói. Amigo é assim. Não dá pra não se ferir junto.

Tem gente que eu abraço forte à distância. E peço ao vento que leve esse carinho...

E o primeiro passo foi dado....

Inauguro esse espaço hoje. Que ele seja perfumado sempre, por mim e por todos aqueles que aqui desejarem partilhar comigo essa paixão pela poesia...A poesia do poema, da prosa poética, das histórias da vida. A poesia da música, da pintura, da fotografia, da dança, do cinema.
Inauguro em um dia insólito....um dia em que me falta perfume para poetizar o corpo (o meu acabou) e me falta a poesia para perfumar a alma (ela escapuliu e eu sei bem para onde)...Escreverei pouco hoje, por isso. Hoje eu sou toda falta.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tempo verbal

Hoje acordei com uma raiva danada de dois tempos verbais: futuro do pretérito do indicativo
e pretérito imperfeito do subjuntivo.
Explico as razões.
O verbo manifesta um processo localizado no tempo. Ora, pois, o que indicam esses tempos
fugidios? Inconclusão, indeterminação, bruma. Algo sempre suspenso no ar.
Recorro à gramática e descubro que até a definição conceitual mostra-se aérea. Vejamos:
- futuro do pretérito do indicativo: indica um processo futuro tomado em relação a um fato passado.(pode?)
- pretérito imperfeito do subjuntivo: expressa um fato passado mas posterior a outro já ocorrido.(é serio isso?)
Enfim, me indisponho com eles nessa manhã sustentada em fumaça.
Quero curvar meu coração e meu raciocínio para o presente do indicativo. Eu penso, eu faço, eu existo.
Estou de bronca com os "seria, faria, desejaria" e com os "se eu fosse, se eu fizesse, se eu desejasse".
Estou de mal porque me lembra "eu viveria" e "se eu vivesse".
E eu VIVO, nesse instante-já.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

De bem com o coração

Hoje eu decidi fazer as pazes com o meu coração. Deixar de perguntar tanto a ele as razões, os porquês, as explicações. Deixar de tecer críticas quando ele me mostra afetos ou desafetos que me trazem angústia.
Deixar que a vida que nele pulsa transborde, ainda que retire a direção que me propus há minutos atrás.
Deixar que ele chore o que tem para chorar, pois como diz a outra Ana, tudo que não verte, envenena.
Hoje eu decidi oferecer a mão e o abrigo para o meu coração louco e terno, cansado e pulsante, enamorado e sozinho.
Deixar que o meu afago e o meu aceite, sem brigas ou discussões, permita a ele ser de qualquer jeito. Ele é.
Deixar que toda a ternura o envolva com um manto quentinho, porque a fertilidade nasce do cuidado.
Hoje eu decidi cuidar do meu coração. Ele precisa.


E amanhã, quiçá, possam nascer flores.


domingo, 27 de novembro de 2011

Pra dizer adeus








Só hoje se deu conta do tamanho, da proporção, da grandeza da impossibilidade.
Só hoje olhou-se com a coragem precisa, exata, dolorosa como uma navalha fina perfurando seu corpo e sua existência.
Só hoje se convenceu de que nada há pra ser dito. Ou muito haveria para ser dito. Mas não será pronunciado. 
 Como a montanha majestosa que via à sua frente naquela estrada, o que existe em si é perene, inabalável, intenso, inexplicável. Como não se explica nesse tempo, nessa vida, deve ter razões que não lhe é permitido conhecer. Os céus explicariam, mas é tão longe...
Desejaria que o tempo fosse seu amigo, mas hoje ele é impedimento, obstáculo, barreira. O tempo é uma pedra imensa no caminho...e  não pode nem tem forças para retirá-la.
Despede-se, sem nunca ter dito e nunca dizer adeus. Seria incompreensível para ele. Não têm uma história, não há do que se despedir.
Despede-se desse amor....ali dentro de si. Despede-se não do sentimento. Este será guardado a mil chaves e cadeados, no lugar mais adentro, mais enclausurado e mais belo de sua alma.
Despede-se da ideia de um dia pronunciar o amor. Despede-se da ideia de um dia lhe contar como o seu corpo e sua alma se alegram quando o vê.
Despede-se das imagens que desenhou, paisagens repletas dos dois juntos.
Despede-se do gosto que sente dele, mesmo sem ter experimentado até o fim.
Despede-se do cheiro que sente ao fechar os olhos e lembrar do seu corpo, lembranças do que nunca viu.
Despede-se da saudade do que nunca teve.
Aceno pro esquecimento, velho amigo que às vezes retorna...
Agora sabe a dor de ir embora.
E ela nunca disse adeus.

domingo, 20 de novembro de 2011

Pedido de urgência

Anjos e criaturas divinas
que velam pelo Céu e pela Terra.
Anjo da guarda
que vai à minha frente.
Pai Todo Poderoso
que a tudo assiste e protege.
Pai que se foi
mas que sempre cá está.
Cura-me do que mais ninguém pode?
Arranca-me do coração
Tanta beleza que aqui fez morada
Mas que nunca dará flores?
Me ensina o esquecimento?
Me salva?
Me explica?
Eu quero sentir o vazio
O nada, a indiferença.
E do meu coração
escutar tão somente
o pulsar leve
de quem nada carrega.
Pode ser para amanhã?
Desculpe, mas tenho pressa.


sábado, 19 de novembro de 2011

Mergulho

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me preparar. Estou naquela fase de separar a roupa apropriada, testar o equipamento, arrumar a mochila. Ver se tudo funciona direitinho, porque cada mergulho exige planejamento e cuidado. É a parte mais fácil.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me concentrar. Respirar na sintonia adequada, acalmar a mente, tranqüilizar o espírito. Desligar-me das tantas coisas que povoam o pensamento, porque cada mergulho exige concentração e equilíbrio. É uma etapa nem tão fácil assim.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me entregar. Abrir os olhos para o deleite que vem. Saber mais do que ver, saber olhar. Ampliar o ângulo da minha visão para ser capaz de contemplar mais do que tudo aquilo que já se oferece pra mim. Explorar o inexplorável, o desconhecido, a vida que está por vir...aquilo que não se deu. É a fase do difícil, do desafio, da luta.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso escolher as águas. Qual parte do mar imenso e profundo me abrigará. Há que se ter águas cristalinas para facilitar o olhar? Depende do que se quer ver. Há que se escolher águas conhecidas, já povoadas por olhares outros? Depende do que se quer descobrir. É a cantiga da coragem.

Hoje eu decidi mergulhar. No meu próprio mar. Nas minhas águas. No meu oceano. Neste mundo habitado por tantas coisas e tantos seres, de todos os tipos. Descobrir o que não se ofereceu fortuitamente, aquelas coisinhas que necessitam de ajuda para olhar. É a escolha da verdade.

Hoje eu decidi mergulhar. Águas profundas. Zona abissal. Como todo mergulhador sabe, há que se considerar a pressão, maior limitação humana nessa aventura. Prepararei meu coração para não ser esmagado pelas cem toneladas que eu mesma arremessarei sobre ele. É o poema da resistência.


Hoje eu decidi mergulhar. Mas não desejo olhar de novo para tudo aquilo que já vi e já sei. Encantar-me com as criaturas mágicas que desenhei, seres fluorescentes, aqueles com os quais sonhamos como redentores da nossa felicidade. Embriagar-me com a ilusão dos castelos que construí, feitos de areia, vento e fragilidade. Admirar-me com os mais lindos peixes multicoloridos, tão fáceis de se amar pelo encanto que exalam..Pasmar-me diante das maravilhas divinas, como as montanhas do Mid-Ocean Ridge.

Não, não é definitivamente isso que eu desejo. Mas nem todo mergulhador sabe.

Quero no fim é admirar as pedras, pedrinhas. Os seres bentônicos: algas, esponjas, ouriços-do-mar. Os pequenos anelídeos para os quais ninguém olha. Crustáceos e cnidários. Peixes dos mais pequeninos. Aqueles de uma só cor, que quase ninguém enxerga. Quero olhar para tudo aquilo que não é fácil ver porque carece de beleza imediata....mas, por isso mesmo, pode esconder o meu maior e verdadeiro tesouro.

Tchibummm!!!!



Foto: Steve Collin in http://www.flickr.com/photos/coasterman

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pedacinhos de tudo

Dividiu a si mesma, corpo e alma, em pedacinhos de existência. Como cômodos de uma casa recheada de memórias, fotos amarelecidas, badulaques de longe e cadernos de viagem. Como gavetas de um armário atoladas de bilhetes, diários, passagens de ida e de volta. Quadradinhos de caixa de música, repletos de anéis que não se usa, de broches e enfeites que se guarda para imaginar o passado e lembrar de um futuro. Procurou em cada cantinho, de cada pedacinho, aquilo que lhe habitava provisoriamente. Sim, porque nem todo dia, nem todo tempo, são as mesmas coisas que nos tomam forma. Procurou corajosamente e descobriu: em cada cantinho, em cada pedacinho, naquele momento, tudo era uma só substância de amor. De uma intensidade insana e triste.
Até que tentou arrumar de outro jeito, providenciar uma faxina, buscar uma ação de despejo. Mas o amor quando instala morada é como inquilino petulante, só se despede quando acaba seu próprio tempo. Juntou os pedacinhos, de corpo e de alma, para viver inteira.




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

In(compreensão)

Algo não dito sempre faz sombra.
E eu preciso da luz.
Algo não entendido faz névoa.
E eu preciso do sol.
Mas quem pode entender o poeta?
Apenas a poesia o compreende.
A poesia e o silêncio.
Não espero mais compreensão dos homens.
A verdade que se abriga no coração do poeta
mora em cantinho escondido dos olhos.
Longe do pragmatismo, da matemática, da lógica.
É preciso um pouco de louco, de anjo e de criança
para entender a poesia do vento.
Algo não dito faz sombra.
E eu preciso de uma lanterna de mil volts.


                                          Foto: Crazy Ivory in http://www.flickr.com/photos/crazy-ivory/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Véu

De nós dois tenho um só desejo: solidão.
Ah... os breves e raros momentos em que desenhamos diálogos nunca se vestem de solitude.
Há sempre um segredo docemente convidado...Uma bruma que paira no olhar, uma nuvem usando máscara.


Generosidade


 
Eu descobri, de repente, em um oceano de tristeza, que a minha força está na doçura de oferecer flores que não tenho, mas invento.

sábado, 8 de outubro de 2011

Miragem

Teu rosto.
Tão breve meu olhar-te.
Brevemente eterno.
Levo-te na memória viva
Como escultura cravada em pedra.
Sublime momento este em que meus olhos te encontram
E guardo sua imagem em frasquinhos de poesia.
E dela me alimento, aos poucos.
Como me alimenta
O que é belo e intocável.
Como me alimenta
O pôr do sol majestoso e efêmero
E o mar nos dias de inverno.