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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Beleza de gente



Se eu pudesse ter um luxo a mais nessa vida, tenho certeza de que  me daria uma pessoa.
Não uma pessoa qualquer, mas alguém com muita objetividade, vocação para a praticidade, organização metódica e muita, muita racionalidade.
Pagaria muito bem a este ser (se pudesse fazê-lo e se o encontrasse disponível).
Seria alguém para fazer coisinhas que detesto mas que nenhum mortal pode deixar de cumprir se desejar sobreviver nessa selva de pedra.
Tenho uma lista dessas tarefinhas ordinárias: ir ao supermercado (gosto é de ir na feira e comer pastel no fim, mas não tenho tempo), pagar as contas do mês, ir ao banco falar com o gerente, controlar o orçamento, pensar nas coisas que tenho que comprar, ir ao caixa eletrônico, etc.
Como todo mundo, precisei ir a esse negócio chamado caixa eletrônico. Fim de ano é uma festa: a gente vai comprando, gastando, presentinho pra cá, comidinha pra lá, pequenos gostos para alegrar o espírito da alegria que ronda essa época. Depois, no início do outro ano, o calendário virado nos diz que na festa da vida há outras coisas a enfrentar.
Fui lá me encontrar com essa máquina e me deparei com uma beleza de gente: a Dona Luzia. Não, eu não a conhecia. Mas ela se deu  a conhecer um pouquinho naqueles breves minutos.
Tem gente que parece levar o coração escancarado no peito, mesmo sob os tecidos que o cobrem, mesmo sob a pele que o aconchega. A Dona Luzia deve ser assim. Ao menos foi assim que eu a percebi.
Enfrentar foi o verbo que ela pronunciou quando se deu conta da minha presença.
"É minha filha, é preciso enfrentar os números que sairão nesse papel. Não tem jeito não, a vida obriga".
E eu me vi na Dona Luzia.
Começamos a traçar nosso diálogo sobre os enfrentamentos práticos da vida e a nossa comum ojeriza por tais coisinhas que rondam o chacoalhar de cada dia.
Lembrei agora dessa beleza de gente, dessa ternura de mulher. Desconfio que, como eu, ela tem coração feito de poesia. Tenho cá com os meus botões que, assim mesmo como eu, a Dona Luzia deve ter uma aptidão danada para o platonismo, para enxergar no que vê o invisível que ninguém vê.
Lembrei e fiquei arrependida de não ter perguntado uma coisa para essa pessoinha que parecia flor que nasce sozinha no meio do concreto.
"Dona Luzia, como a senhora fez  para conservar essa doçura toda até aqui e não endurecer esse coração de flor?"
Perdi a chance. Generosa como me pareceu, teria me ensinado. Agora, como estive desatenta e não agarrei o minuto, parece que a vida ficou me olhando ir embora. E eu continuo gostando nadinha dessa máquina que me obriga a enfrentar as coisas pequenas desse mundo.
E meu coração continua incorrígivel. Tem jeito não.

foto: Juliana Cunha

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