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domingo, 22 de setembro de 2013

Recolhimento


 

Assim como alguns bichos que se camuflam, o mimetismo será minha arma. Como o bicho-pau que, diante do perigo, permanece imóvel e recolhe as patas junto ao corpo, misturando-se aos gravetos das árvores.

Tentarei, como ele, permanecer indistinta do mundo que me cerca. Serei um alvo de impossível reconhecimento.

Assim como a lua cheia, na sua fase mais bela e esplendorosa, se esconde durante o eclipse, entrarei na região da umbra.

Aos que me estranharem, peço perdão. Aos que julgarem egoísmo e prepotência, peço compreensão: é um apelo da razão e, contraditoriamente, do instinto. Porque ultimamente tenho falado demais, mesmo em estado de sobriedade. Porque já não consigo manter a polidez das frases amareladas que não causam espanto. Porque já não posso me manter impassível diante dos sentimentos que gritam. Porque estou em perigo.

Assim como a lagarta se mantém em seu casulo até o momento da liberdade, tomarei para mim uma pele sobreposta que me mantenha protegida.

Preciso criar asas coloridas.

Como tropas em desvantagem, retiro as bandeiras.

Instauro em meu mundo, ditadora de mim mesma, o toque de recolher.

Porque já não fico com os olhos úmidos, mas derramo lágrimas do corpo todo.

 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Fim de outono

 
 
 
 
 
 
 


 Chegaste no prenúncio da primavera.
Haveria tempo para cessar a sede dos meus galhos.
A derrubada das minhas folhas secas.
Haveria tempo para florescer minhas pétalas.
Chegaste no certeiro minuto: intervalo entre a seca terra e a erosão.

sábado, 17 de agosto de 2013

a forceps

 
 
 
 
 
 
Rasgar um novo céu
 
a qualquer custo.
 
Dentro deste cinza
 
que inebria e desordena
 
forjar um azul.
 
Abrir o coração
 
a fórceps.
 
Dentro deste vermelho
 
que pulsa e sangra
 
extirpar o que dói.
 
 
 
 
 
 
 
 


sábado, 10 de agosto de 2013

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

só uma




 
 
 
 
Ah, diz-me uma só palavra
 
uma só
 
três letrinhas
 
subitamente estarei salva.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

hoje!

 
 
hoje
 
hoje
 
exatamente hoje
 
nem um dia a mais
 
hoje
 
hoje
 
necessariamente hoje
 
e nem um dia a mais
 
hoje
 
hoje
 
amanhã eu me obrigo
 
a ser eu e nada mais.

domingo, 4 de agosto de 2013

à distância

 
 
 
agora 
velarei por ti ao longe 
tão longe como estou daquela estrela que vejo da minha janela 
tão longe como estou da casa em que nasci
tão longe como estou do infinito mar azul
 
agora
deixo de te sugar feito o aspirador de pó que tenho e nunca uso
deixo de te perguntar sobre o dia só pra ficar mais perto
deixo de te rondar feito o vigia da minha rua.
 
eu te cuido
tão longe como estou do esquecimento
tão longe como estou de mim desde que estive perto de ti.

luz






Aceito tão somente paz e leveza.
Dos infinitos escuros
Sei eu o caminho.


anjo

 
 

arte: Hellena Gudaitz

precisamos, às vezes, de um anjo que nos salve. de um anjo que nos dê colo. de um anjo que nos dê paz. de um anjo que nos aceite como somos. sem muitas perguntas e sem nenhuma resposta. de um anjo que nos olhe e, ao olhar, dedique-se a sentir o que somos. precisamos, às vezes, reconhecer o anjo que pode estar ao nosso lado, com todas as imperfeições que um anjo também pode ter. é preciso saber olhar. que eu saiba, que nós saibamos.


 

sábado, 3 de agosto de 2013

deserção





há um sentimento de desistência aqui dentro.
aquele momento em que depõe-se as armas.
abandona-se a luta.
coloca-se a esperança em outro lugar.
levanta-se a bandeira branca.
abandona-se o campo de batalha.
é: eu venho desistindo.
desistir por vezes é o maior ato de coragem.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

eu não sei rezar







Fiz todas as rezas
De joelhos
Coração sangrando
Alma entregue
Peito em pranto

Pedi e implorei
Prometi e assinei
Fazer jejum
Ir no Santuário
Descer o calvário
Largar o vício
Abandonar a luxúria

Qualquer suplício
Melhor do que esse
Esperar o nunca
Desejar o impossível
Amar o improvável.

Descobri que não sei rezar.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

hoje...

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 A saudade hoje é uma dor fina feito corte de folha de papel.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Outra Monomania

 
 












Escrevo pelo celular.
 
Para não perder palavras
vale qualquer lugar.
 
Parafraseando a canção da Clarice Falcão:
 
Se quiser ser famosa
ou ao menos lida
vou ter que me controlar!
Um livro de poemas
sobre uma pessoa só
quem desejará ler ou comprar?
 
 
 


segunda-feira, 29 de julho de 2013

fantasia

 
 


 


uma rua
uma esquina
uma escada
um senhor e seu carrinho de sanduíche
uma avenida
as luzes
um caminho
sem volta
 
nunca mais serão os mesmos:
o caminho
as luzes
a avenida
o senhor e seu carrinho
a escada
a esquina
a rua
 
 
tudo vestido de dor de saudade.


Migalhas

 
 
 
 
 
Da história de João e Maria
sou o passarinho
que vive à mercê
das migalhas de pão
que jogas ao chão.


sábado, 27 de julho de 2013

eu

 
 
 
 
estou aqui
 
sou inteira
 
está tudo certo
 
está tudo bem.
 
não preciso de imagem
 
hoje não.
 
as imagens do incerto
 
estão na justa medida do que vem.
 
e virá
 
eu sei.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Cacos de vidro






 
Esquecer um amor é como velar nossos mortos.
 
O mesmo ritual.
 
Sem dia
 
Sem hora de início
 
Sem previsão de término.
 
Nos despedimos aos pouquinhos.
 
Revisitamos as fotos
 
Relemos as palavras
 
Re-tocamos os objetos.
 
Diluídas pelo tempo
 
As memórias se esvanecem
 
Como fumaça.
´
Enquanto isso
 
Somos o caco do caco do caco de vidro
 
Que se estatelou ao chão.
 
 


terça-feira, 23 de julho de 2013

mal-me-quer bem-me-quer

 
 
 
Nos momentos mais doces
 
pensava que era coisa de Deus
 
tipo  lua
 
estrelas
 
 beija-flor no girassol
 
brigadeiro de colher
 
taça de vinho em noite fria.
 
Nos momentos mais ácidos
 
pensava que era coisa do Mal
 
tipo vento que mata
 
maremoto que inunda
 
angústia que desagua
 
vício que alucina
 
dor em dia de solidão.
 
Nos momentos de agora
 
abandonou a indecisão
 
amor com ou sem dor
 
só pode ser divino
 
só pode ser amor.
 
Quando começa a doçura
 
quando termina a agonia
 
pode ser noite
 
pode ser dia.
 
 
 
 
 


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Segredos


 
 
 
 
Segredos.
 
Coisas que só posso falar a você.
 
Segredos.
 
Coisas que não devo falar a você.
 
Solidão.

domingo, 21 de julho de 2013

Qualquer negócio




Ando com uma necessidade doida de escrever longas conversas. Tenho fascínio pelos poemas, mas o nosso discurso é de fases também. Como a vida. Como nós. Preciso de prosas quilométricas para abrandar a minha alma no tempo de agora. Hoje ouvi pela primeira vez uma música que, de tão simples, me remete à infância. Mas a simplicidade exige muito esforço e, como sempre, fala intensamente.
A canção fala do amor, daquele amor desinteressado, ofertado de graça e que sequer espera correspondência direta. Amor, amor mesmo...dos bons. Daqueles que ninguém (ou quase ninguém, já que eu boto a maior fé!) acredita, sente, alimenta, reconhece. Eu reconheço, eu sinto. Sem querer imprimir a ele qualquer traço de eternidade....pode ser pra sempre ou não...mas "que seja infinito enquanto dure". Aquele tipo de afeto que até abre mão do sentimento para ver o outro feliz, em paz, no bem. Eu reconheço. Mas às vezes isso traz uma solidão danada, porque nem mesmo quem recebe coloca fé.
A canção falava sobre o que se pode fazer em nome do amor: "Qualquer negócio". É mesmo assim quando um sentimento feito esse te inunda: fazemos e sonhamos com as coisas mais simples (e, por isso mesmo, grandiosas): um cantinho de amor com um lugar pra se aconchegar que precisa de muito pouco mesmo, quase nada, mas um nada cheio da presença do outro; a gente já nem queria mais ter filhos mas faria tudo pra ter um pedacinho daquele outro dentro da gente e com a gente a vida inteira (acho que meio uma tentativa de eternizar o amor, mas quase nunca dá certo) ainda que isso seja um absurdo do tamanho desse mundão de meu Deus. 
É. A gente faz qualquer negócio mesmo...qualquer coisa....qualquer luta....qualquer tudo. Às vezes o tempo verbal é outro, por força das circunstâncias: faríamos, lutaríamos. Mas isto não retira a verdade nem a beleza. Apenas acrescenta um tantão de dor, mas isso é outra história...

sábado, 20 de julho de 2013

Sapatos vermelhos

 
 
 
 
 
 
 
 
nunca foi
 
nunca será
 
tão dolorida
 
uma visão:
 
sapatos vermelhos
 
no seu chão.
 


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Indiferença


 
 
 
 
 
 
 
 
 
O nada.
 
Feito farpa afiada.
 
A indiferença.
 
Feito tanto-faz cortante.
 
A distância.
 
Feito beleza de lua cheia.
 
É o que havia
Nos teus olhos
Naquele dia.
 


quarta-feira, 17 de julho de 2013

a pior solidão

 
 
 
 
 
 
 
De todas as possíveis
E impossíveis
A pior:
a solidão acompanhada.
 


terça-feira, 16 de julho de 2013

Silêncio







Não mais direi
Não saberás
Não mais falarei
Nunca escutarás
Do que eu seria capaz
ia
Do que eu faria
ia
Do que eu lutaria
ia
Do que eu amaria
ia
Só ia.

domingo, 14 de julho de 2013

Sob o véu

 
 
 
 
 
Guardei em lugar mais remoto
 
 palavras que nunca pronunciarei.
 
Escondi em lugar mais secreto
 
 gestos que nunca farei.
 
Em frasquinhos de perfume lacrei
 
 lágrimas que nunca mostrarei.
 
Se me perguntas, o que direi?
 
Detrás do véu que me cobre
 
Apenas um sorriso.
 


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Vazio



 
 
 
 
Por aqui vai passando
 
Feito neblina em dia de vento
 
Feito fumaça em dia de chuva
 
Feito bola de sabão em céu aberto
 
Feito névoa depois do sol
 
Feito nada em dia nenhum
 
Por aqui vai passando
escorrendo
dissipando
apagando
sumindo
saindo
indo
 
 
 


segunda-feira, 8 de julho de 2013

Abstinência

 
 
 
 
 
Ando contando as horas e minutos, como os dependentes ajuizados quando decidem que dominarão seus vícios.
72 horas hoje.
Parece pouco, para mim é muito.
72 horas hoje.
Tenho sintomas de abstinência, uma ausência cortante dilacerando o peito, um desejo enorme de lembrar-te de que existo.
Mas são 72 horas.
Não posso voltar atrás: é questão de me ter de volta.
Somente eu posso me devolver.
 
 


sábado, 6 de julho de 2013

Renúncia





Deixo-te ir
Apaguei as palavras
Que velava como viúva diante das memórias do que se foi.
Fantasmas eram todas
Existiam sem existir.
 
Deixo-te ir
Guardei as palavras
Que pronunciava vez em sempre como sempre
Tentativas eram todas
Tentavam em vão.
 
Deixo-te ir
Rezo as palavras
Que falaria a todo instante se pudesse
Cânticos serão todas
Cuidando de ti ao longe.
 
 
 


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Crepúsculo



 
 
 
 
 
Deixe-me.
Mesmo que implore o gesto.
Deixe-me.
Ainda que insista.
Deixe-me.
 
Minha alma cansada
Despedaçada
Atordoada
Desnorteada
Pede bússola.
 
No silêncio de todo fim de tarde
Na esperança do crepúsculo
Espero o gesto que nunca chega.



quinta-feira, 27 de junho de 2013

resignação




fiz promessa
clamei aos santos
rezei de joelhos
percorri o terço
não deu certo
 
ignorei
fiz pirraça
pouco caso
empinei o nariz
não deu certo
 
desesperei
reguei-me em pranto
encolhi-me num canto
coloquei-me no escuro
não deu certo
 
resignação é meu nome.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Pirraça







Eu vou embaralhar as letras do seu nome
 pra ver se você deixa de fazer sentido

domingo, 12 de maio de 2013

(re) nascer











venho sentindo um novo tempo
percebo a poda das folhas
o germinar de novas sementes
o desabrochar de flores exóticas
o renovar do sulco que corre nas entranhas.
estou renascendo.
às vezes dói, às vezes não
mas sempre uma dor que ri.
a dor de recomeçar pode ser feliz.
agora é.

domingo, 28 de abril de 2013

Basta!





Me descobri pequena
Estas capazes de pequenezas
Vingança
Orgulho
Arrogância

Cansei de grandezas
Generosidade
Humildade
Amorosidade
Estas essências do bem

Não sou boazinha
Não sou nenhum anjo
Trago em mim, na justa medida
O sangue que lateja na veia e nos sapatos.

Aos humildes, generosidade
Aos arrogantes, animosidade.
Pão pão
queijo queijo


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Presença de presente






Dá-me hoje 
ou amanhã
qualquer dia desses
um pouquinho
da tua presença.
Apenas esteja presente.
E estando presente
me deixe te olhar 
só um pouquinho  
sem se incomodar.
Dá-me hoje
ou amanhã
qualquer dia desses
o presente que me acalma.
Deixa-me sentir 
que está aqui.
É só.
É tanto.
 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

desistência









Deixe-me
na minha tristeza
mergulhada no luto
daqueles que desistem.
Toda desistência
tem o mesmo pesar
das perdas fúnebres.
É algo que se vai
sem que desejemos.
É algo que se abandona
sem que se tenha vivido.
É um pedaço de si
que a vida carrega.
Deixe-me aqui
a dor não se vai
se não a mastigamos
se não a digerimos
até virar pó.

domingo, 14 de abril de 2013

quem sabe?






tanto afeto
tanto
que uma vida
esta vida
será pouca
e em outra
haverá de ter sido
e na próxima
quem sabe?
 
 

sábado, 13 de abril de 2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

Receitinha para esquecer amor impossível








Vá deixando cada dia um pouquinho o apego.
Porque amor, possível ou não, traz um quentinho danado de bom..
Olhe sempre como se fosse a ultima vez (às vezes não dá pra ser o fim).
Permita-se abandonar.
Olhe a estrada à frente e busque enxergar o que está por vir
Tenha musica bem alta...e cante. Cante com todas as forças.
Olhe o que vai permanecendo lá atrás. Despeça-se.
Então chore. Chore muito.
Para lavar a alma e não inundar o coração.
Para lavar a estrada e apagar os sinais.
Não deixe migalhas de pão para achar o caminho (o amor prega peças,é arteiro).
Cada dia um pouquinho, sem pressa.
Se funciona? Chega ao ponto?
Não sei.
Estou na metade da receita