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domingo, 22 de janeiro de 2012

Verbos






Despejar o vinho
Esvaziar o copo
Livrar o vaso das flores
Virar porta-retratos
Deletar mensagens
Rasgar bilhetes
Apagar memórias
Zerar quilometragem
Lavar a estrada
Viver sem nada
Exausta.

Foto: Juliana Cunha





sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ora vai, ora vem





Há despedidas que demoram uma eternidade.
É o coração ensaiando passos de dança
Ora vai, ora vem...
Hora vai, hora vem...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Beleza de gente



Se eu pudesse ter um luxo a mais nessa vida, tenho certeza de que  me daria uma pessoa.
Não uma pessoa qualquer, mas alguém com muita objetividade, vocação para a praticidade, organização metódica e muita, muita racionalidade.
Pagaria muito bem a este ser (se pudesse fazê-lo e se o encontrasse disponível).
Seria alguém para fazer coisinhas que detesto mas que nenhum mortal pode deixar de cumprir se desejar sobreviver nessa selva de pedra.
Tenho uma lista dessas tarefinhas ordinárias: ir ao supermercado (gosto é de ir na feira e comer pastel no fim, mas não tenho tempo), pagar as contas do mês, ir ao banco falar com o gerente, controlar o orçamento, pensar nas coisas que tenho que comprar, ir ao caixa eletrônico, etc.
Como todo mundo, precisei ir a esse negócio chamado caixa eletrônico. Fim de ano é uma festa: a gente vai comprando, gastando, presentinho pra cá, comidinha pra lá, pequenos gostos para alegrar o espírito da alegria que ronda essa época. Depois, no início do outro ano, o calendário virado nos diz que na festa da vida há outras coisas a enfrentar.
Fui lá me encontrar com essa máquina e me deparei com uma beleza de gente: a Dona Luzia. Não, eu não a conhecia. Mas ela se deu  a conhecer um pouquinho naqueles breves minutos.
Tem gente que parece levar o coração escancarado no peito, mesmo sob os tecidos que o cobrem, mesmo sob a pele que o aconchega. A Dona Luzia deve ser assim. Ao menos foi assim que eu a percebi.
Enfrentar foi o verbo que ela pronunciou quando se deu conta da minha presença.
"É minha filha, é preciso enfrentar os números que sairão nesse papel. Não tem jeito não, a vida obriga".
E eu me vi na Dona Luzia.
Começamos a traçar nosso diálogo sobre os enfrentamentos práticos da vida e a nossa comum ojeriza por tais coisinhas que rondam o chacoalhar de cada dia.
Lembrei agora dessa beleza de gente, dessa ternura de mulher. Desconfio que, como eu, ela tem coração feito de poesia. Tenho cá com os meus botões que, assim mesmo como eu, a Dona Luzia deve ter uma aptidão danada para o platonismo, para enxergar no que vê o invisível que ninguém vê.
Lembrei e fiquei arrependida de não ter perguntado uma coisa para essa pessoinha que parecia flor que nasce sozinha no meio do concreto.
"Dona Luzia, como a senhora fez  para conservar essa doçura toda até aqui e não endurecer esse coração de flor?"
Perdi a chance. Generosa como me pareceu, teria me ensinado. Agora, como estive desatenta e não agarrei o minuto, parece que a vida ficou me olhando ir embora. E eu continuo gostando nadinha dessa máquina que me obriga a enfrentar as coisas pequenas desse mundo.
E meu coração continua incorrígivel. Tem jeito não.

foto: Juliana Cunha

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

E um novo caminho desponta....





Tenho dois encontros imperdíveis esta semana.
Sessenta e alguns jovens celebram o terminar de uma fase e o começo de tantas outras.
Sessenta e alguns deixam esse ponto da estrada e começam a desenhar novos rumos.
Lembro-me de quantas vezes, entre conversas emocionadas, conselhos, puxões de orelha e risadas, eu lhes disse: muito brevemente trocamos de lugar e então...."o bicho pega"!
Era uma irreverente maneira de mostrar que esse dia chegaria e que cada minuto do tempo era importante demais para se perder. Coisas e conversas de quem ensina.
O que eu lhes diria hoje?...o que eu lhes digo aqui, nessas precárias linhas.
Vão...desenhem a melhor paisagem que conseguirem. Não economizem alma.
Desenhem suas próprias águas, construam seus barcos. Mergulhem em águas outras também...mas sem nunca negar a essência daquelas que guiam o seu espírito.
Lembrei-me de uma historinha, uma metáfora que compartilhei com tantos deles em muitos  momentos. Existem dois barcos, um fortemente iluminado e repleto de gente, conhecida ou não. Rotas previamente e exatamente traçadas. Recursos e ferramentas mais que consolidadas. Cheio de conforto e aparente sossego. Nos sentimos quentinhos e aceitos.
Outro, com parca luz, pouco povoado. Em construção. A rota? Em processo, sendo delineada a cada instante no viver da vida e no encontro com o outro. Sem muitas cartas marcadas e manual de utilização. Conforto apenas para o momento necessário e muita, muita inquietude....Nos sentimos aqui sempre em eterna busca.
Qual escolhemos? Parece óbvio? O que nos define?
Enfim, o que nos define são os princípios que afirmamos para a viagem. Se definimos conforto e sossego....se definimos luta e inquietação...
Meus caríssimos amigos-alunos. Escolham sempre aquilo que não lhes retire a essência do que vocês mesmos definiram para si.
Mais do que ensinar a ensinar, eu gostaria de ter lhes dado apenas uma lição, quiçá pelo exemplo: tenham e ensinem gerações a ter êxtase na alma.



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Somos igualmente diferentes





Essa manhã laranja querendo salvar o céu do cinza.
Esse rei que promete fazer do dia o seu reinado.
Esse canto dos pássaros que quebram o silêncio do meu mais interno barulho.
Tudo isso e nada mais do que isso plantou em mim essa flor de pensamento: somos igualmente diferentes. E quanta beleza reside em três palavras!
Lembrei-me do que mais me agrada quando estou na grandeza de Sampa, em plena Avenida Paulista ou Viaduto do Chá: ver (não com os olhos, mas com o corpo todo) a singularidade de cada um que por ali transita.  Também fiz muito essa viagem sentada nas estações ou vagões do metrô.
Quanto maior o lugar, mais tesouro de gente tem. É a vida em pleno milagre. É a vida correndo e adoro vê-la em movimento.
Somos igualmente diferentes.
O que parece igual em cada um é apenas metáfora. O que faz com que pareçamos iguais é apenas o desejo traduzido de quem nos vê.
O  mais difícil exercício é olhar o outro com o corpo todo, com tudo que temos para ler o mundo, mas despindo-se dos nossos sonhos de gente. Cada um é como é. Nenhuma vida cabe no nosso sonho de vida. Cada um cabe a si próprio.
Somos igualmente diferentes.
Temos o direito de sermos diferentes quando o desejo de igualdade como condição nos desfaz. Temos o direito de sermos iguais quando o desejo do diferente como rótulo nos submete.
E eu, cada dia, cada manhã laranja ou cinza, quero explorar mais fundo esse mergulho: descobrir em cada outro do meu dia a riqueza que lhe pertence e o torna único. Despir-me dos meus sonhos de gente em cada encontro com gente de verdade.
Eu te convido. Ah, valerá cada segundo de você.

foto: Daniel Jarr


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ausência

                                                         
O nada.
Como atirar-se em precipício - vão sem fim
Como quarto escuro - sem som e sem silêncio
Como arco-íris de faixa só - transparente
Como caixa de lápis - sem cor.
Nada.
Nem dor.

foto: Jesse Therrien

domingo, 15 de janeiro de 2012

sábado, 14 de janeiro de 2012

Delicadeza




O dia me trouxe a lembrança da delicadeza da flor. Da ternura que transborda da sua cor, da sua textura, da fragilidade das pétalas. Do toque sensível, da fugacidade da beleza.
O dia me trouxe a ideia de que todos podem sentir esse êxtase diante de uma ternura de flor. Poucos, entretanto, sabem cuidá-la. A flor se ressente de toda forma de descuido: murcha, seca, dissolve-se.
Assim como ela, o verdadeiro sentimento. Aquele que nutrimos, sincera e incondicionalmente, pelo outro. Nada exige, mas há que se tocar com leveza para preservar a beleza.
A quem nos sente tudo pode ser dito. Quem nos porta dentro de si com verdadeira afeição, seja qual for, admite sempre o toque honesto, franco e comovido da verdade.
A verdade generosa sempre há de cultivar a flor. De fazê-la bela, ainda que momentaneamente triste.
O sentimento e a flor: dois seres da mesma essência.
A flor e o sentimento: finos fios de vidro a perfumar nossos dias.

Bela e provisória





Sabem o que é belo na vida? A sua provisoriedade.
Nada nos é dado prever com certeza dessas absolutas e sem margem de dúvida.
O imprevisto pode vir com dor, mágoa, tristeza, incompreensão. Pode vir também com alegria, alívio, esperança. Não importa.
O que vale mesmo é que a vida, a cada surpresa, nos aponta uma estrada. Às vezes, porque o coração mergulha na dor, não vislumbramos as flores, mas elas continuam lá. A vida não nos nega beleza.
Um gesto, uma frase, um olhar. Um abraço, um telefonema, uma mensagem. Um encontro, um desencontro, um recado explícito ou não. Pequenas curvas que podem reconstruir estradas.
Sabem o que é belo na vida? As estradas nunca se dão prontas. É preciso escolher cada florzinha, cada pedrinha, cada pássaro que há de pousar.
Tudo está lá...mas o nosso livre arbítrio escolhe o que vê. Escolhe o que deseja.
Se o coração ainda sufoca no escuro, muitas vezes os olhos se desorientam. Não tem problema não, ele pode ficar quietinho, sozinho, encolhidinho...só um pouquinho.
A luz virá. Mas não virá de lanterna alguma que alguém lhe empreste.
A luz virá de um botãozinho que temos cá dentro. Virá quando, nós mesmos, decidirmos apertar o botão.
Pode ser hoje. Como diz o Drummond: Pode ser. Que seja!


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Concretude

Há dias em que um vazio intenso percorre o corpo e a alma. Dias em que descobrimos a fragilidade dos pilares nos quais ancoramos nossos desejos, sonhos e planos.
Há dias em que nos descobrimos sós. Dias em que percebemos que o tudo que nos sustenta tem o sopro do vento como âncora.
Há dias em que nos damos conta de que os espaços podem ruir a qualquer tempo. Dias em que olhamos o tudo que temos e vislumbramos o nada.
Dias em que conseguimos enxergar o invisível que criamos aqui, dentro do peito, cheio de fumaça e névoa.
Nesses dias, como hoje, é preciso esboçar um novo desenho. Feito de carvão e pedra.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Palavras não-ditas

O que diria hoje?
O que diria caso, por um milagre, fosse possível dizer-lhe?
Diria que eu não disse ...
E as palavras se debatem tentando escapar.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Gente que mora em mim

Tem gente de todo jeito. E todo jeito de gente é jeito bom de alguém pra alguém.
Tem gente que me acalma, que tem o poder divino de me abraçar à distância. Não me é dado conhecer esse mistério. Pensando bem , perderia a graça toda da vida saber o porquê. É porque é.

Quando o meu corpo deixar de existir, se houver esse encontro com o Dono dos destinos, minha alma será atrevida o bastante para pedir que me explique porque tem gente que a gente encontra e nunca mais quer desencontrar.

Tem gente que ocupa um lugar tão quentinho dentro de mim que a vontade é proteger esse cantinho de todo mal, de toda dor. Tem gente que parece dentro de nós com tudo aquilo de que gostamos mais fora de nós: o livro predileto, a música de alento, o recanto preferido da casa.

Não precisa fazer nada não. Tem gente que mora em mim e nada se explica. É porque é.

Vou cuidando desse cantinho, planto flores, respingo perfumes. De vez em quando, porque sou imperfeita , deixo crescer uma ou outra erva daninha. Mas no final, é em mim que dói. Amigo é assim. Não dá pra não se ferir junto.

Tem gente que eu abraço forte à distância. E peço ao vento que leve esse carinho...

E o primeiro passo foi dado....

Inauguro esse espaço hoje. Que ele seja perfumado sempre, por mim e por todos aqueles que aqui desejarem partilhar comigo essa paixão pela poesia...A poesia do poema, da prosa poética, das histórias da vida. A poesia da música, da pintura, da fotografia, da dança, do cinema.
Inauguro em um dia insólito....um dia em que me falta perfume para poetizar o corpo (o meu acabou) e me falta a poesia para perfumar a alma (ela escapuliu e eu sei bem para onde)...Escreverei pouco hoje, por isso. Hoje eu sou toda falta.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tempo verbal

Hoje acordei com uma raiva danada de dois tempos verbais: futuro do pretérito do indicativo
e pretérito imperfeito do subjuntivo.
Explico as razões.
O verbo manifesta um processo localizado no tempo. Ora, pois, o que indicam esses tempos
fugidios? Inconclusão, indeterminação, bruma. Algo sempre suspenso no ar.
Recorro à gramática e descubro que até a definição conceitual mostra-se aérea. Vejamos:
- futuro do pretérito do indicativo: indica um processo futuro tomado em relação a um fato passado.(pode?)
- pretérito imperfeito do subjuntivo: expressa um fato passado mas posterior a outro já ocorrido.(é serio isso?)
Enfim, me indisponho com eles nessa manhã sustentada em fumaça.
Quero curvar meu coração e meu raciocínio para o presente do indicativo. Eu penso, eu faço, eu existo.
Estou de bronca com os "seria, faria, desejaria" e com os "se eu fosse, se eu fizesse, se eu desejasse".
Estou de mal porque me lembra "eu viveria" e "se eu vivesse".
E eu VIVO, nesse instante-já.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

De bem com o coração

Hoje eu decidi fazer as pazes com o meu coração. Deixar de perguntar tanto a ele as razões, os porquês, as explicações. Deixar de tecer críticas quando ele me mostra afetos ou desafetos que me trazem angústia.
Deixar que a vida que nele pulsa transborde, ainda que retire a direção que me propus há minutos atrás.
Deixar que ele chore o que tem para chorar, pois como diz a outra Ana, tudo que não verte, envenena.
Hoje eu decidi oferecer a mão e o abrigo para o meu coração louco e terno, cansado e pulsante, enamorado e sozinho.
Deixar que o meu afago e o meu aceite, sem brigas ou discussões, permita a ele ser de qualquer jeito. Ele é.
Deixar que toda a ternura o envolva com um manto quentinho, porque a fertilidade nasce do cuidado.
Hoje eu decidi cuidar do meu coração. Ele precisa.


E amanhã, quiçá, possam nascer flores.


domingo, 27 de novembro de 2011

Pra dizer adeus








Só hoje se deu conta do tamanho, da proporção, da grandeza da impossibilidade.
Só hoje olhou-se com a coragem precisa, exata, dolorosa como uma navalha fina perfurando seu corpo e sua existência.
Só hoje se convenceu de que nada há pra ser dito. Ou muito haveria para ser dito. Mas não será pronunciado. 
 Como a montanha majestosa que via à sua frente naquela estrada, o que existe em si é perene, inabalável, intenso, inexplicável. Como não se explica nesse tempo, nessa vida, deve ter razões que não lhe é permitido conhecer. Os céus explicariam, mas é tão longe...
Desejaria que o tempo fosse seu amigo, mas hoje ele é impedimento, obstáculo, barreira. O tempo é uma pedra imensa no caminho...e  não pode nem tem forças para retirá-la.
Despede-se, sem nunca ter dito e nunca dizer adeus. Seria incompreensível para ele. Não têm uma história, não há do que se despedir.
Despede-se desse amor....ali dentro de si. Despede-se não do sentimento. Este será guardado a mil chaves e cadeados, no lugar mais adentro, mais enclausurado e mais belo de sua alma.
Despede-se da ideia de um dia pronunciar o amor. Despede-se da ideia de um dia lhe contar como o seu corpo e sua alma se alegram quando o vê.
Despede-se das imagens que desenhou, paisagens repletas dos dois juntos.
Despede-se do gosto que sente dele, mesmo sem ter experimentado até o fim.
Despede-se do cheiro que sente ao fechar os olhos e lembrar do seu corpo, lembranças do que nunca viu.
Despede-se da saudade do que nunca teve.
Aceno pro esquecimento, velho amigo que às vezes retorna...
Agora sabe a dor de ir embora.
E ela nunca disse adeus.

domingo, 20 de novembro de 2011

Pedido de urgência

Anjos e criaturas divinas
que velam pelo Céu e pela Terra.
Anjo da guarda
que vai à minha frente.
Pai Todo Poderoso
que a tudo assiste e protege.
Pai que se foi
mas que sempre cá está.
Cura-me do que mais ninguém pode?
Arranca-me do coração
Tanta beleza que aqui fez morada
Mas que nunca dará flores?
Me ensina o esquecimento?
Me salva?
Me explica?
Eu quero sentir o vazio
O nada, a indiferença.
E do meu coração
escutar tão somente
o pulsar leve
de quem nada carrega.
Pode ser para amanhã?
Desculpe, mas tenho pressa.


sábado, 19 de novembro de 2011

Mergulho

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me preparar. Estou naquela fase de separar a roupa apropriada, testar o equipamento, arrumar a mochila. Ver se tudo funciona direitinho, porque cada mergulho exige planejamento e cuidado. É a parte mais fácil.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me concentrar. Respirar na sintonia adequada, acalmar a mente, tranqüilizar o espírito. Desligar-me das tantas coisas que povoam o pensamento, porque cada mergulho exige concentração e equilíbrio. É uma etapa nem tão fácil assim.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me entregar. Abrir os olhos para o deleite que vem. Saber mais do que ver, saber olhar. Ampliar o ângulo da minha visão para ser capaz de contemplar mais do que tudo aquilo que já se oferece pra mim. Explorar o inexplorável, o desconhecido, a vida que está por vir...aquilo que não se deu. É a fase do difícil, do desafio, da luta.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso escolher as águas. Qual parte do mar imenso e profundo me abrigará. Há que se ter águas cristalinas para facilitar o olhar? Depende do que se quer ver. Há que se escolher águas conhecidas, já povoadas por olhares outros? Depende do que se quer descobrir. É a cantiga da coragem.

Hoje eu decidi mergulhar. No meu próprio mar. Nas minhas águas. No meu oceano. Neste mundo habitado por tantas coisas e tantos seres, de todos os tipos. Descobrir o que não se ofereceu fortuitamente, aquelas coisinhas que necessitam de ajuda para olhar. É a escolha da verdade.

Hoje eu decidi mergulhar. Águas profundas. Zona abissal. Como todo mergulhador sabe, há que se considerar a pressão, maior limitação humana nessa aventura. Prepararei meu coração para não ser esmagado pelas cem toneladas que eu mesma arremessarei sobre ele. É o poema da resistência.


Hoje eu decidi mergulhar. Mas não desejo olhar de novo para tudo aquilo que já vi e já sei. Encantar-me com as criaturas mágicas que desenhei, seres fluorescentes, aqueles com os quais sonhamos como redentores da nossa felicidade. Embriagar-me com a ilusão dos castelos que construí, feitos de areia, vento e fragilidade. Admirar-me com os mais lindos peixes multicoloridos, tão fáceis de se amar pelo encanto que exalam..Pasmar-me diante das maravilhas divinas, como as montanhas do Mid-Ocean Ridge.

Não, não é definitivamente isso que eu desejo. Mas nem todo mergulhador sabe.

Quero no fim é admirar as pedras, pedrinhas. Os seres bentônicos: algas, esponjas, ouriços-do-mar. Os pequenos anelídeos para os quais ninguém olha. Crustáceos e cnidários. Peixes dos mais pequeninos. Aqueles de uma só cor, que quase ninguém enxerga. Quero olhar para tudo aquilo que não é fácil ver porque carece de beleza imediata....mas, por isso mesmo, pode esconder o meu maior e verdadeiro tesouro.

Tchibummm!!!!



Foto: Steve Collin in http://www.flickr.com/photos/coasterman

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pedacinhos de tudo

Dividiu a si mesma, corpo e alma, em pedacinhos de existência. Como cômodos de uma casa recheada de memórias, fotos amarelecidas, badulaques de longe e cadernos de viagem. Como gavetas de um armário atoladas de bilhetes, diários, passagens de ida e de volta. Quadradinhos de caixa de música, repletos de anéis que não se usa, de broches e enfeites que se guarda para imaginar o passado e lembrar de um futuro. Procurou em cada cantinho, de cada pedacinho, aquilo que lhe habitava provisoriamente. Sim, porque nem todo dia, nem todo tempo, são as mesmas coisas que nos tomam forma. Procurou corajosamente e descobriu: em cada cantinho, em cada pedacinho, naquele momento, tudo era uma só substância de amor. De uma intensidade insana e triste.
Até que tentou arrumar de outro jeito, providenciar uma faxina, buscar uma ação de despejo. Mas o amor quando instala morada é como inquilino petulante, só se despede quando acaba seu próprio tempo. Juntou os pedacinhos, de corpo e de alma, para viver inteira.