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sábado, 14 de janeiro de 2012

Bela e provisória





Sabem o que é belo na vida? A sua provisoriedade.
Nada nos é dado prever com certeza dessas absolutas e sem margem de dúvida.
O imprevisto pode vir com dor, mágoa, tristeza, incompreensão. Pode vir também com alegria, alívio, esperança. Não importa.
O que vale mesmo é que a vida, a cada surpresa, nos aponta uma estrada. Às vezes, porque o coração mergulha na dor, não vislumbramos as flores, mas elas continuam lá. A vida não nos nega beleza.
Um gesto, uma frase, um olhar. Um abraço, um telefonema, uma mensagem. Um encontro, um desencontro, um recado explícito ou não. Pequenas curvas que podem reconstruir estradas.
Sabem o que é belo na vida? As estradas nunca se dão prontas. É preciso escolher cada florzinha, cada pedrinha, cada pássaro que há de pousar.
Tudo está lá...mas o nosso livre arbítrio escolhe o que vê. Escolhe o que deseja.
Se o coração ainda sufoca no escuro, muitas vezes os olhos se desorientam. Não tem problema não, ele pode ficar quietinho, sozinho, encolhidinho...só um pouquinho.
A luz virá. Mas não virá de lanterna alguma que alguém lhe empreste.
A luz virá de um botãozinho que temos cá dentro. Virá quando, nós mesmos, decidirmos apertar o botão.
Pode ser hoje. Como diz o Drummond: Pode ser. Que seja!


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Concretude

Há dias em que um vazio intenso percorre o corpo e a alma. Dias em que descobrimos a fragilidade dos pilares nos quais ancoramos nossos desejos, sonhos e planos.
Há dias em que nos descobrimos sós. Dias em que percebemos que o tudo que nos sustenta tem o sopro do vento como âncora.
Há dias em que nos damos conta de que os espaços podem ruir a qualquer tempo. Dias em que olhamos o tudo que temos e vislumbramos o nada.
Dias em que conseguimos enxergar o invisível que criamos aqui, dentro do peito, cheio de fumaça e névoa.
Nesses dias, como hoje, é preciso esboçar um novo desenho. Feito de carvão e pedra.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Palavras não-ditas

O que diria hoje?
O que diria caso, por um milagre, fosse possível dizer-lhe?
Diria que eu não disse ...
E as palavras se debatem tentando escapar.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Gente que mora em mim

Tem gente de todo jeito. E todo jeito de gente é jeito bom de alguém pra alguém.
Tem gente que me acalma, que tem o poder divino de me abraçar à distância. Não me é dado conhecer esse mistério. Pensando bem , perderia a graça toda da vida saber o porquê. É porque é.

Quando o meu corpo deixar de existir, se houver esse encontro com o Dono dos destinos, minha alma será atrevida o bastante para pedir que me explique porque tem gente que a gente encontra e nunca mais quer desencontrar.

Tem gente que ocupa um lugar tão quentinho dentro de mim que a vontade é proteger esse cantinho de todo mal, de toda dor. Tem gente que parece dentro de nós com tudo aquilo de que gostamos mais fora de nós: o livro predileto, a música de alento, o recanto preferido da casa.

Não precisa fazer nada não. Tem gente que mora em mim e nada se explica. É porque é.

Vou cuidando desse cantinho, planto flores, respingo perfumes. De vez em quando, porque sou imperfeita , deixo crescer uma ou outra erva daninha. Mas no final, é em mim que dói. Amigo é assim. Não dá pra não se ferir junto.

Tem gente que eu abraço forte à distância. E peço ao vento que leve esse carinho...

E o primeiro passo foi dado....

Inauguro esse espaço hoje. Que ele seja perfumado sempre, por mim e por todos aqueles que aqui desejarem partilhar comigo essa paixão pela poesia...A poesia do poema, da prosa poética, das histórias da vida. A poesia da música, da pintura, da fotografia, da dança, do cinema.
Inauguro em um dia insólito....um dia em que me falta perfume para poetizar o corpo (o meu acabou) e me falta a poesia para perfumar a alma (ela escapuliu e eu sei bem para onde)...Escreverei pouco hoje, por isso. Hoje eu sou toda falta.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tempo verbal

Hoje acordei com uma raiva danada de dois tempos verbais: futuro do pretérito do indicativo
e pretérito imperfeito do subjuntivo.
Explico as razões.
O verbo manifesta um processo localizado no tempo. Ora, pois, o que indicam esses tempos
fugidios? Inconclusão, indeterminação, bruma. Algo sempre suspenso no ar.
Recorro à gramática e descubro que até a definição conceitual mostra-se aérea. Vejamos:
- futuro do pretérito do indicativo: indica um processo futuro tomado em relação a um fato passado.(pode?)
- pretérito imperfeito do subjuntivo: expressa um fato passado mas posterior a outro já ocorrido.(é serio isso?)
Enfim, me indisponho com eles nessa manhã sustentada em fumaça.
Quero curvar meu coração e meu raciocínio para o presente do indicativo. Eu penso, eu faço, eu existo.
Estou de bronca com os "seria, faria, desejaria" e com os "se eu fosse, se eu fizesse, se eu desejasse".
Estou de mal porque me lembra "eu viveria" e "se eu vivesse".
E eu VIVO, nesse instante-já.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

De bem com o coração

Hoje eu decidi fazer as pazes com o meu coração. Deixar de perguntar tanto a ele as razões, os porquês, as explicações. Deixar de tecer críticas quando ele me mostra afetos ou desafetos que me trazem angústia.
Deixar que a vida que nele pulsa transborde, ainda que retire a direção que me propus há minutos atrás.
Deixar que ele chore o que tem para chorar, pois como diz a outra Ana, tudo que não verte, envenena.
Hoje eu decidi oferecer a mão e o abrigo para o meu coração louco e terno, cansado e pulsante, enamorado e sozinho.
Deixar que o meu afago e o meu aceite, sem brigas ou discussões, permita a ele ser de qualquer jeito. Ele é.
Deixar que toda a ternura o envolva com um manto quentinho, porque a fertilidade nasce do cuidado.
Hoje eu decidi cuidar do meu coração. Ele precisa.


E amanhã, quiçá, possam nascer flores.


domingo, 27 de novembro de 2011

Pra dizer adeus








Só hoje se deu conta do tamanho, da proporção, da grandeza da impossibilidade.
Só hoje olhou-se com a coragem precisa, exata, dolorosa como uma navalha fina perfurando seu corpo e sua existência.
Só hoje se convenceu de que nada há pra ser dito. Ou muito haveria para ser dito. Mas não será pronunciado. 
 Como a montanha majestosa que via à sua frente naquela estrada, o que existe em si é perene, inabalável, intenso, inexplicável. Como não se explica nesse tempo, nessa vida, deve ter razões que não lhe é permitido conhecer. Os céus explicariam, mas é tão longe...
Desejaria que o tempo fosse seu amigo, mas hoje ele é impedimento, obstáculo, barreira. O tempo é uma pedra imensa no caminho...e  não pode nem tem forças para retirá-la.
Despede-se, sem nunca ter dito e nunca dizer adeus. Seria incompreensível para ele. Não têm uma história, não há do que se despedir.
Despede-se desse amor....ali dentro de si. Despede-se não do sentimento. Este será guardado a mil chaves e cadeados, no lugar mais adentro, mais enclausurado e mais belo de sua alma.
Despede-se da ideia de um dia pronunciar o amor. Despede-se da ideia de um dia lhe contar como o seu corpo e sua alma se alegram quando o vê.
Despede-se das imagens que desenhou, paisagens repletas dos dois juntos.
Despede-se do gosto que sente dele, mesmo sem ter experimentado até o fim.
Despede-se do cheiro que sente ao fechar os olhos e lembrar do seu corpo, lembranças do que nunca viu.
Despede-se da saudade do que nunca teve.
Aceno pro esquecimento, velho amigo que às vezes retorna...
Agora sabe a dor de ir embora.
E ela nunca disse adeus.

domingo, 20 de novembro de 2011

Pedido de urgência

Anjos e criaturas divinas
que velam pelo Céu e pela Terra.
Anjo da guarda
que vai à minha frente.
Pai Todo Poderoso
que a tudo assiste e protege.
Pai que se foi
mas que sempre cá está.
Cura-me do que mais ninguém pode?
Arranca-me do coração
Tanta beleza que aqui fez morada
Mas que nunca dará flores?
Me ensina o esquecimento?
Me salva?
Me explica?
Eu quero sentir o vazio
O nada, a indiferença.
E do meu coração
escutar tão somente
o pulsar leve
de quem nada carrega.
Pode ser para amanhã?
Desculpe, mas tenho pressa.


sábado, 19 de novembro de 2011

Mergulho

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me preparar. Estou naquela fase de separar a roupa apropriada, testar o equipamento, arrumar a mochila. Ver se tudo funciona direitinho, porque cada mergulho exige planejamento e cuidado. É a parte mais fácil.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me concentrar. Respirar na sintonia adequada, acalmar a mente, tranqüilizar o espírito. Desligar-me das tantas coisas que povoam o pensamento, porque cada mergulho exige concentração e equilíbrio. É uma etapa nem tão fácil assim.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me entregar. Abrir os olhos para o deleite que vem. Saber mais do que ver, saber olhar. Ampliar o ângulo da minha visão para ser capaz de contemplar mais do que tudo aquilo que já se oferece pra mim. Explorar o inexplorável, o desconhecido, a vida que está por vir...aquilo que não se deu. É a fase do difícil, do desafio, da luta.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso escolher as águas. Qual parte do mar imenso e profundo me abrigará. Há que se ter águas cristalinas para facilitar o olhar? Depende do que se quer ver. Há que se escolher águas conhecidas, já povoadas por olhares outros? Depende do que se quer descobrir. É a cantiga da coragem.

Hoje eu decidi mergulhar. No meu próprio mar. Nas minhas águas. No meu oceano. Neste mundo habitado por tantas coisas e tantos seres, de todos os tipos. Descobrir o que não se ofereceu fortuitamente, aquelas coisinhas que necessitam de ajuda para olhar. É a escolha da verdade.

Hoje eu decidi mergulhar. Águas profundas. Zona abissal. Como todo mergulhador sabe, há que se considerar a pressão, maior limitação humana nessa aventura. Prepararei meu coração para não ser esmagado pelas cem toneladas que eu mesma arremessarei sobre ele. É o poema da resistência.


Hoje eu decidi mergulhar. Mas não desejo olhar de novo para tudo aquilo que já vi e já sei. Encantar-me com as criaturas mágicas que desenhei, seres fluorescentes, aqueles com os quais sonhamos como redentores da nossa felicidade. Embriagar-me com a ilusão dos castelos que construí, feitos de areia, vento e fragilidade. Admirar-me com os mais lindos peixes multicoloridos, tão fáceis de se amar pelo encanto que exalam..Pasmar-me diante das maravilhas divinas, como as montanhas do Mid-Ocean Ridge.

Não, não é definitivamente isso que eu desejo. Mas nem todo mergulhador sabe.

Quero no fim é admirar as pedras, pedrinhas. Os seres bentônicos: algas, esponjas, ouriços-do-mar. Os pequenos anelídeos para os quais ninguém olha. Crustáceos e cnidários. Peixes dos mais pequeninos. Aqueles de uma só cor, que quase ninguém enxerga. Quero olhar para tudo aquilo que não é fácil ver porque carece de beleza imediata....mas, por isso mesmo, pode esconder o meu maior e verdadeiro tesouro.

Tchibummm!!!!



Foto: Steve Collin in http://www.flickr.com/photos/coasterman

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pedacinhos de tudo

Dividiu a si mesma, corpo e alma, em pedacinhos de existência. Como cômodos de uma casa recheada de memórias, fotos amarelecidas, badulaques de longe e cadernos de viagem. Como gavetas de um armário atoladas de bilhetes, diários, passagens de ida e de volta. Quadradinhos de caixa de música, repletos de anéis que não se usa, de broches e enfeites que se guarda para imaginar o passado e lembrar de um futuro. Procurou em cada cantinho, de cada pedacinho, aquilo que lhe habitava provisoriamente. Sim, porque nem todo dia, nem todo tempo, são as mesmas coisas que nos tomam forma. Procurou corajosamente e descobriu: em cada cantinho, em cada pedacinho, naquele momento, tudo era uma só substância de amor. De uma intensidade insana e triste.
Até que tentou arrumar de outro jeito, providenciar uma faxina, buscar uma ação de despejo. Mas o amor quando instala morada é como inquilino petulante, só se despede quando acaba seu próprio tempo. Juntou os pedacinhos, de corpo e de alma, para viver inteira.




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

In(compreensão)

Algo não dito sempre faz sombra.
E eu preciso da luz.
Algo não entendido faz névoa.
E eu preciso do sol.
Mas quem pode entender o poeta?
Apenas a poesia o compreende.
A poesia e o silêncio.
Não espero mais compreensão dos homens.
A verdade que se abriga no coração do poeta
mora em cantinho escondido dos olhos.
Longe do pragmatismo, da matemática, da lógica.
É preciso um pouco de louco, de anjo e de criança
para entender a poesia do vento.
Algo não dito faz sombra.
E eu preciso de uma lanterna de mil volts.


                                          Foto: Crazy Ivory in http://www.flickr.com/photos/crazy-ivory/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Véu

De nós dois tenho um só desejo: solidão.
Ah... os breves e raros momentos em que desenhamos diálogos nunca se vestem de solitude.
Há sempre um segredo docemente convidado...Uma bruma que paira no olhar, uma nuvem usando máscara.


Generosidade


 
Eu descobri, de repente, em um oceano de tristeza, que a minha força está na doçura de oferecer flores que não tenho, mas invento.

sábado, 8 de outubro de 2011

Miragem

Teu rosto.
Tão breve meu olhar-te.
Brevemente eterno.
Levo-te na memória viva
Como escultura cravada em pedra.
Sublime momento este em que meus olhos te encontram
E guardo sua imagem em frasquinhos de poesia.
E dela me alimento, aos poucos.
Como me alimenta
O que é belo e intocável.
Como me alimenta
O pôr do sol majestoso e efêmero
E o mar nos dias de inverno.



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Para os dias que não se explicam

Para aqueles dias que nascem ensolarados
Mas nossos olhos só vêem a sombra.
Para aqueles dias em que respiramos devagar e profundamente
Enquanto todos expiram energia e pressa.
Para aqueles dias em que desejamos arrancar algo do peito
Mas a vida não permite.
Para aqueles dias em que nos sentimos sós
Enquanto tantos conversam e riem á nossa volta.
Para esses dias..
Silêncio, um amigo e um copo qualquer.



.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Promessa



Prometeu a si mesma nunca mais lhe fitar os olhos profundamente.
Tinha medo da cegueira, do clarão que não se apaga, da verdade (seja lá qual fosse).
A escuridão do mistério por vezes é um lugar quentinho onde se pode dormir.




terça-feira, 13 de setembro de 2011

Desencanto



Porque não te posso mais príncipe
Estou lhe arrancando o cavalo branco,
a espada, a capa vermelha e brilhante.
Tenho esperança.
Se lhe furtar o encantamento,
talvez a paz me encontre.
Já não posso mais imprimir mistério ao desconhecido
.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Flor e Pão (Ana Sousa e Douglas Rodrigues)






Era uma menina de pés descalços
Sujos com a poeira do dia.
Era uma menina de coração alado
livre como ventania.
Não tinha medo do escuro
 Não tinha medo do amor nem dor
Apenas medo da saudade.

Nos pés sujos, cansaço e alegria
No coração livre, paixão e fantasia
Em seu rosto a coragem, a ousadia.
 Nada de pintura em sua pele
Era maquiada com as cores cinzas do dia...

Mas algo que encantava era seu olhar
como se coubesse nele toda beleza da vida.
Era uma menina com olhos famintos
com fome de vida
e sede de tudo
Para onde ela vai? pergunta o caminho
Sem bússola, sem direção, sem rumo
ela apenas caminha.
Quais mares, estradas, ruelas e becos
por ela passarão?
Quais  esquinas  lhe guiarão?
Ela apenas caminha.

Nas mãos uma flor e um pedaço de pão
e a poeira da estrada suja seus pés.
E porque com o pouco se faz muito
bastavam-lhe a vida, o caminho e o brilho nos olhos.
Bastava-lhe a flor, bastava-lhe o pão.


(perfume preparado e bordado a dois corações: o meu e do amigo Douglas)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Poeminha

Como as palavras foram bailar
em qualquer lugar longe assim
emudecida e insana
encontro na varanda, enfim,
o melhor amigo (a dançar):
Vento, vento, vento.
Vais a tantos lugares,
Leva esse beijo por mim?





Queria tanto pó de pirlimpimpim...