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sábado, 19 de novembro de 2011

Mergulho

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me preparar. Estou naquela fase de separar a roupa apropriada, testar o equipamento, arrumar a mochila. Ver se tudo funciona direitinho, porque cada mergulho exige planejamento e cuidado. É a parte mais fácil.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me concentrar. Respirar na sintonia adequada, acalmar a mente, tranqüilizar o espírito. Desligar-me das tantas coisas que povoam o pensamento, porque cada mergulho exige concentração e equilíbrio. É uma etapa nem tão fácil assim.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso me entregar. Abrir os olhos para o deleite que vem. Saber mais do que ver, saber olhar. Ampliar o ângulo da minha visão para ser capaz de contemplar mais do que tudo aquilo que já se oferece pra mim. Explorar o inexplorável, o desconhecido, a vida que está por vir...aquilo que não se deu. É a fase do difícil, do desafio, da luta.

Hoje eu decidi mergulhar. Como todo mergulhador sabe, preciso escolher as águas. Qual parte do mar imenso e profundo me abrigará. Há que se ter águas cristalinas para facilitar o olhar? Depende do que se quer ver. Há que se escolher águas conhecidas, já povoadas por olhares outros? Depende do que se quer descobrir. É a cantiga da coragem.

Hoje eu decidi mergulhar. No meu próprio mar. Nas minhas águas. No meu oceano. Neste mundo habitado por tantas coisas e tantos seres, de todos os tipos. Descobrir o que não se ofereceu fortuitamente, aquelas coisinhas que necessitam de ajuda para olhar. É a escolha da verdade.

Hoje eu decidi mergulhar. Águas profundas. Zona abissal. Como todo mergulhador sabe, há que se considerar a pressão, maior limitação humana nessa aventura. Prepararei meu coração para não ser esmagado pelas cem toneladas que eu mesma arremessarei sobre ele. É o poema da resistência.


Hoje eu decidi mergulhar. Mas não desejo olhar de novo para tudo aquilo que já vi e já sei. Encantar-me com as criaturas mágicas que desenhei, seres fluorescentes, aqueles com os quais sonhamos como redentores da nossa felicidade. Embriagar-me com a ilusão dos castelos que construí, feitos de areia, vento e fragilidade. Admirar-me com os mais lindos peixes multicoloridos, tão fáceis de se amar pelo encanto que exalam..Pasmar-me diante das maravilhas divinas, como as montanhas do Mid-Ocean Ridge.

Não, não é definitivamente isso que eu desejo. Mas nem todo mergulhador sabe.

Quero no fim é admirar as pedras, pedrinhas. Os seres bentônicos: algas, esponjas, ouriços-do-mar. Os pequenos anelídeos para os quais ninguém olha. Crustáceos e cnidários. Peixes dos mais pequeninos. Aqueles de uma só cor, que quase ninguém enxerga. Quero olhar para tudo aquilo que não é fácil ver porque carece de beleza imediata....mas, por isso mesmo, pode esconder o meu maior e verdadeiro tesouro.

Tchibummm!!!!



Foto: Steve Collin in http://www.flickr.com/photos/coasterman

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pedacinhos de tudo

Dividiu a si mesma, corpo e alma, em pedacinhos de existência. Como cômodos de uma casa recheada de memórias, fotos amarelecidas, badulaques de longe e cadernos de viagem. Como gavetas de um armário atoladas de bilhetes, diários, passagens de ida e de volta. Quadradinhos de caixa de música, repletos de anéis que não se usa, de broches e enfeites que se guarda para imaginar o passado e lembrar de um futuro. Procurou em cada cantinho, de cada pedacinho, aquilo que lhe habitava provisoriamente. Sim, porque nem todo dia, nem todo tempo, são as mesmas coisas que nos tomam forma. Procurou corajosamente e descobriu: em cada cantinho, em cada pedacinho, naquele momento, tudo era uma só substância de amor. De uma intensidade insana e triste.
Até que tentou arrumar de outro jeito, providenciar uma faxina, buscar uma ação de despejo. Mas o amor quando instala morada é como inquilino petulante, só se despede quando acaba seu próprio tempo. Juntou os pedacinhos, de corpo e de alma, para viver inteira.




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

In(compreensão)

Algo não dito sempre faz sombra.
E eu preciso da luz.
Algo não entendido faz névoa.
E eu preciso do sol.
Mas quem pode entender o poeta?
Apenas a poesia o compreende.
A poesia e o silêncio.
Não espero mais compreensão dos homens.
A verdade que se abriga no coração do poeta
mora em cantinho escondido dos olhos.
Longe do pragmatismo, da matemática, da lógica.
É preciso um pouco de louco, de anjo e de criança
para entender a poesia do vento.
Algo não dito faz sombra.
E eu preciso de uma lanterna de mil volts.


                                          Foto: Crazy Ivory in http://www.flickr.com/photos/crazy-ivory/

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Véu

De nós dois tenho um só desejo: solidão.
Ah... os breves e raros momentos em que desenhamos diálogos nunca se vestem de solitude.
Há sempre um segredo docemente convidado...Uma bruma que paira no olhar, uma nuvem usando máscara.


Generosidade


 
Eu descobri, de repente, em um oceano de tristeza, que a minha força está na doçura de oferecer flores que não tenho, mas invento.

sábado, 8 de outubro de 2011

Miragem

Teu rosto.
Tão breve meu olhar-te.
Brevemente eterno.
Levo-te na memória viva
Como escultura cravada em pedra.
Sublime momento este em que meus olhos te encontram
E guardo sua imagem em frasquinhos de poesia.
E dela me alimento, aos poucos.
Como me alimenta
O que é belo e intocável.
Como me alimenta
O pôr do sol majestoso e efêmero
E o mar nos dias de inverno.



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Para os dias que não se explicam

Para aqueles dias que nascem ensolarados
Mas nossos olhos só vêem a sombra.
Para aqueles dias em que respiramos devagar e profundamente
Enquanto todos expiram energia e pressa.
Para aqueles dias em que desejamos arrancar algo do peito
Mas a vida não permite.
Para aqueles dias em que nos sentimos sós
Enquanto tantos conversam e riem á nossa volta.
Para esses dias..
Silêncio, um amigo e um copo qualquer.



.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Promessa



Prometeu a si mesma nunca mais lhe fitar os olhos profundamente.
Tinha medo da cegueira, do clarão que não se apaga, da verdade (seja lá qual fosse).
A escuridão do mistério por vezes é um lugar quentinho onde se pode dormir.




terça-feira, 13 de setembro de 2011

Desencanto



Porque não te posso mais príncipe
Estou lhe arrancando o cavalo branco,
a espada, a capa vermelha e brilhante.
Tenho esperança.
Se lhe furtar o encantamento,
talvez a paz me encontre.
Já não posso mais imprimir mistério ao desconhecido
.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Flor e Pão (Ana Sousa e Douglas Rodrigues)






Era uma menina de pés descalços
Sujos com a poeira do dia.
Era uma menina de coração alado
livre como ventania.
Não tinha medo do escuro
 Não tinha medo do amor nem dor
Apenas medo da saudade.

Nos pés sujos, cansaço e alegria
No coração livre, paixão e fantasia
Em seu rosto a coragem, a ousadia.
 Nada de pintura em sua pele
Era maquiada com as cores cinzas do dia...

Mas algo que encantava era seu olhar
como se coubesse nele toda beleza da vida.
Era uma menina com olhos famintos
com fome de vida
e sede de tudo
Para onde ela vai? pergunta o caminho
Sem bússola, sem direção, sem rumo
ela apenas caminha.
Quais mares, estradas, ruelas e becos
por ela passarão?
Quais  esquinas  lhe guiarão?
Ela apenas caminha.

Nas mãos uma flor e um pedaço de pão
e a poeira da estrada suja seus pés.
E porque com o pouco se faz muito
bastavam-lhe a vida, o caminho e o brilho nos olhos.
Bastava-lhe a flor, bastava-lhe o pão.


(perfume preparado e bordado a dois corações: o meu e do amigo Douglas)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Poeminha

Como as palavras foram bailar
em qualquer lugar longe assim
emudecida e insana
encontro na varanda, enfim,
o melhor amigo (a dançar):
Vento, vento, vento.
Vais a tantos lugares,
Leva esse beijo por mim?





Queria tanto pó de pirlimpimpim...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Exagero

O sorriso.
Poderia morrer por aquele sorriso.
Caminho de luz em bosque florido.
Cachoeira de águas cristalinas.
Morreria feliz nelas vestida.
Ah...se soubesses
Poderias parar de sorrir.
E isso sim seria morrer tristemente
Em estradinhas escuras de vale sombrio.


Foto: Juliana Cunha

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Desabafo

Parafraseando a Adélia Prado
Quero olhar a pedra e ver somente a pedra.

Mas quando a poesia me encontra
Na pedra vejo as histórias todas de todos que encontraram a pedra.
Os que sentaram à pedra e choraram, os que ali passaram e tocaram.
A poesia faz isso. Mas hoje quero ver só a pedra.

Nada de olhar a esquina e imaginar as vidas que ali estiveram
as lembranças que ali se fizeram.
Nada de ver no nada o tudo.
Nada de legendar olhares que não se decifram.

A poesia das coisas me inunda, me desconcerta, me obriga.
E dói.
E hoje, não quero.
Mas é.


sábado, 14 de maio de 2011

À Minha Mãe




Me dá colo quentinho?
Feito nuvem de algodão?

Me dá abraço sem fim?
Feito relógio que não avança?

Me fala mansinho?
Como poema em canção?

Me ensina a olhar?
Como luz que não cansa?

Me diz sim ou não?
Feito seta em direção?

Me promete ficar pra sempre?
Como memória do coração?

Me acorda com um sorriso?
Como sol depois da escuridão?

Me diga que não cresci...
Assim, como criança,
Posso chorar vez em sempre,
Viver na sua esperança,
Acreditar que não me perdi.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Medo




Entre o medo e a alegria de te abraçar
Me deixei vencer pelo primeiro.
Sem coragem de sequer sussurrar
seu nome
E pedir: volte!
Não sei ao certo: covardia ou precaução?
Só sei que esse não te abraçar
doeu, doeu...
O amor...a tudo engrandece:
Um grão de poeira parece mesmo um tornado.
Oh amor...ô doce e inconseqüente amor:
Me abraça?

sábado, 16 de abril de 2011

Confissão







Um dia...
Quando esse sentimento de urgência passar...
Quando te olhar não for mais imperativo...
Quando o abraço que eu não tive deixar de me abraçar.
Neste dia...
Vou te confessar sorrindo
Que conhecer tua existência
Transformou meu corpo
(me alimento só de saudade)
Transformou meu espírito
(sou só incertezas)
Transformou meu jardim e minhas calçadas
(arrancou raízes e pedras).

Vou te contar as inúmeras vezes
Em que voltar era meu último desejo
Ou os incansáveis segundos
Em que meu pensamento te dizia:
Fique um pouco mais!


Mas só um dia...
Quando for possível a confidência sorridente
Diante da chuva que passou.
Talvez não te signifique coisa alguma
Mas enfim serei somente eu.
Agora não dá...
A lembrança do seu rosto ainda me preenche.
E dói.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Oração





Deus Todo-Poderoso, cuja força e poder minha mãe me ensinou a relembrar:
Dá-me a serenidade da brisa fresca desses dias de outono.
Ensina-me a afastar a tempestade da inquietude que desassossega meus dias.
A matar essa saudade que tenho de tudo que ainda não tive, não senti, não toquei.
Ensina-me a ser lua cheia todo dia, tácita, contemplável e sem lacunas.
A aceitar os limites e não desejar o distante, o inatingível, o diferente.
Ajuda-me a alcançar a plenitude satisfeita daqueles que velam o cotidiano.
E perdoa-me.
Amém.

domingo, 3 de abril de 2011

Receitinha para esquecer amor impossível

Vá deixando cada dia um pouquinho o apego.
Porque amor, possível ou não, traz um quentinho danado de bom..
Olhe sempre como se fosse a ultima vez (às vezes não dá pra ser o fim).
Permita-se abandonar.
Olhe a estrada à frente e busque enxergar o que está por vir
Tenha musica bem alta...e cante. Cante com todas as forças.
Olhe o que vai permanecendo lá atrás. Despeça-se.
Então chore. Chore muito.
Para lavar a alma e não inundar o coração.
Para lavar a estrada e apagar os sinais.
Não deixe migalhas de pão para achar o caminho (o amor prega peças,é arteiro).
Cada dia um pouquinho, sem pressa.
Se funciona? Chega ao ponto?
Não sei.
Estou na metade da receita.



quarta-feira, 30 de março de 2011

Segredo

Há algo dentro de mim.
Inquieto e silencioso.
Deve ter asas porque eu o sinto livre, pronto pra voar.
Mas não deixo.
Tenho medo.
Um receio estranho, controverso:
Medo de soltar e vê-lo perecer, desfazer como encanto.
Medo de soltar e senti-lo retornar, ainda mais forte.
Há algo dentro de mim (há mesmo!).
Mas não mostro.
Tenho medo.
Um temor amigo, velho conhecido:
Medo do perigo de olhos que acusam – amargura, incompreensão.
Medo da alegria efêmera que assombra o sonho – desamor, desilusão.
Quietinho....sem voz: eu cuido.
A mim, que tudo aconteça. Sobrevivo.
Mas o que mora em mim é cristalino demais – beleza frágil.
Longas são nossas conversas ao amanhecer: eu o abraço.
O dia nos espera.
É no silêncio de quando eu rumino que nos encontramos.


domingo, 21 de novembro de 2010

Encontro




Dia comum, cotidiano mesmo. Daqueles em que, distraidamente, basta por si. Cumprimos a rotina, os mesmos encontros (que não são idênticos de fato, mas por vezes não nos damos conta), o ir e o vir.
Foi assim, em um desses dias, que a vida  lhe deu um tropeção (matreira,menina,moleca de vida!).
Quando estamos assim, andando linearmente, conformamos o dia (ou deformamos?). Pode ser outra rua, nunca antes vista, mas parece sempre, tudo, nada, a mesma coisa.
Distraidamente, repetidamente, rotineiramente os carros passam, as pessoas passam,as casas passam - “Eta vida besta, meu Deus! – já dizia, em outro contexto, o poeta.
 Nesse começo de novo dia, já envelhecido pela obscuridade do conforto e do tédio, adentra aquele espaço. Tem novos encontros com gente de velha convivência (mas já não se dá conta de que são novos) e um encontro novo com alguém que não existia (puxa, a gente não sabe que as pessoas existem até encontrá-las). Nem percebe a diferença entre os encontros.
 Discurso comum, frases amareladas (Bom dia! Prazer em conhecê-lo!). Ele, de costas. Ela, desprevenida. Ele, nem te ligo. Ela, desavisada. (Podia ter fugido naquele momento, mas como fugimos daquilo que não prevemos?)
 Um momento, um só momento mudaria tudo. E o sossego pacato da vida foi arrebatado. Olhos vestidos d’água  inundaram a sua areia lisa, tão nitidamente desenhada, tão uniformemente feliz. (ilusão?)
Olha para os lados e se interroga se alguém a percebe sem ar, soterrada que foi pela luz daquele olhar. Ninguém. Nem mesmo ele. Somente ela.  Interessante como a vida parece a mesma para todos –ninguém se deu conta.
 Ali está, perplexa. Nenhuma frase seria dita – não caberia mais. No seu silêncio (sem voz, sem ar, sem chão) todas as certezas, antes tão certas, sucumbiram.
 Esteve durante muito tempo se perguntando se somente ela pôde enxergar as luzes, o brilho, a intensidade daqueles olhos. As mulheres? Nenhuma delas viu? Só o meu sossego foi embora?
 Depois, entendeu. As lacunas do seu mundo é que lhe permitiram ver. Tem gente que não tem lacunas, parece que a vida veio pronta e resolvida (tinha uma inveja danada dessa gente!). È que para preencher esses vazios é preciso algo sob medida. Só vestia nela, em mais ninguém. É assim: há pessoas que cabem certinho na gente.
 Nunca mais os dias foram os mesmos. Nem os caminhos. Nem nada que por eles passa. Já não tinha setas. As linhas da estrada se apagaram. E o brilho dos olhos continua a lhe desassossegar...
Vai se reconstruindo, mas “nada do que eu fui me veste agora” . Vem aprendendo a viver com essa inquietude.
Não almeja mais certezas, somente as provisórias. Não sonha mais com estradas sinalizadas, repletas de contornos. Sabe que os encontros são muitos...
 De vez em sempre, respira fundo (a lembrança ausente daqueles olhos lhe dói o peito). Mas encontra beleza na impossibilidade...