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domingo, 21 de novembro de 2010

Encontro




Dia comum, cotidiano mesmo. Daqueles em que, distraidamente, basta por si. Cumprimos a rotina, os mesmos encontros (que não são idênticos de fato, mas por vezes não nos damos conta), o ir e o vir.
Foi assim, em um desses dias, que a vida  lhe deu um tropeção (matreira,menina,moleca de vida!).
Quando estamos assim, andando linearmente, conformamos o dia (ou deformamos?). Pode ser outra rua, nunca antes vista, mas parece sempre, tudo, nada, a mesma coisa.
Distraidamente, repetidamente, rotineiramente os carros passam, as pessoas passam,as casas passam - “Eta vida besta, meu Deus! – já dizia, em outro contexto, o poeta.
 Nesse começo de novo dia, já envelhecido pela obscuridade do conforto e do tédio, adentra aquele espaço. Tem novos encontros com gente de velha convivência (mas já não se dá conta de que são novos) e um encontro novo com alguém que não existia (puxa, a gente não sabe que as pessoas existem até encontrá-las). Nem percebe a diferença entre os encontros.
 Discurso comum, frases amareladas (Bom dia! Prazer em conhecê-lo!). Ele, de costas. Ela, desprevenida. Ele, nem te ligo. Ela, desavisada. (Podia ter fugido naquele momento, mas como fugimos daquilo que não prevemos?)
 Um momento, um só momento mudaria tudo. E o sossego pacato da vida foi arrebatado. Olhos vestidos d’água  inundaram a sua areia lisa, tão nitidamente desenhada, tão uniformemente feliz. (ilusão?)
Olha para os lados e se interroga se alguém a percebe sem ar, soterrada que foi pela luz daquele olhar. Ninguém. Nem mesmo ele. Somente ela.  Interessante como a vida parece a mesma para todos –ninguém se deu conta.
 Ali está, perplexa. Nenhuma frase seria dita – não caberia mais. No seu silêncio (sem voz, sem ar, sem chão) todas as certezas, antes tão certas, sucumbiram.
 Esteve durante muito tempo se perguntando se somente ela pôde enxergar as luzes, o brilho, a intensidade daqueles olhos. As mulheres? Nenhuma delas viu? Só o meu sossego foi embora?
 Depois, entendeu. As lacunas do seu mundo é que lhe permitiram ver. Tem gente que não tem lacunas, parece que a vida veio pronta e resolvida (tinha uma inveja danada dessa gente!). È que para preencher esses vazios é preciso algo sob medida. Só vestia nela, em mais ninguém. É assim: há pessoas que cabem certinho na gente.
 Nunca mais os dias foram os mesmos. Nem os caminhos. Nem nada que por eles passa. Já não tinha setas. As linhas da estrada se apagaram. E o brilho dos olhos continua a lhe desassossegar...
Vai se reconstruindo, mas “nada do que eu fui me veste agora” . Vem aprendendo a viver com essa inquietude.
Não almeja mais certezas, somente as provisórias. Não sonha mais com estradas sinalizadas, repletas de contornos. Sabe que os encontros são muitos...
 De vez em sempre, respira fundo (a lembrança ausente daqueles olhos lhe dói o peito). Mas encontra beleza na impossibilidade...




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