Dia comum, cotidiano mesmo. Daqueles em que, distraidamente, basta
por si. Cumprimos a rotina, os mesmos encontros (que não são idênticos
de fato, mas por vezes não nos damos conta), o ir e o vir.
Foi assim, em um desses dias, que a vida lhe deu um tropeção (matreira,menina,moleca de vida!).
Quando estamos assim, andando linearmente, conformamos o dia (ou
deformamos?). Pode ser outra rua, nunca antes vista, mas parece sempre,
tudo, nada, a mesma coisa.
Distraidamente,
repetidamente, rotineiramente os carros passam, as pessoas passam,as
casas passam - “Eta vida besta, meu Deus! – já dizia, em outro contexto,
o poeta.
Nesse começo de novo dia, já envelhecido
pela obscuridade do conforto e do tédio, adentra aquele espaço. Tem novos encontros com gente de velha convivência (mas já não se dá conta
de que são novos) e um encontro novo com alguém que não existia (puxa, a
gente não sabe que as pessoas existem até encontrá-las). Nem percebe a
diferença entre os encontros.
Discurso comum,
frases amareladas (Bom dia! Prazer em conhecê-lo!). Ele, de costas. Ela,
desprevenida. Ele, nem te ligo. Ela, desavisada. (Podia ter fugido
naquele momento, mas como fugimos daquilo que não prevemos?)
Um momento, um só momento mudaria tudo. E o sossego pacato da vida foi
arrebatado. Olhos vestidos d’água inundaram a sua areia lisa, tão
nitidamente desenhada, tão uniformemente feliz. (ilusão?)
Olha para os lados e se interroga se alguém a percebe sem ar,
soterrada que foi pela luz daquele olhar. Ninguém. Nem mesmo ele. Somente ela. Interessante como a vida parece a mesma para todos –ninguém se deu conta.
Ali está, perplexa. Nenhuma frase seria dita – não caberia mais. No seu silêncio (sem voz, sem ar, sem chão) todas as certezas, antes tão
certas, sucumbiram.
Esteve durante muito tempo se
perguntando se somente ela pôde enxergar as luzes, o brilho, a
intensidade daqueles olhos. As mulheres? Nenhuma delas viu? Só o meu
sossego foi embora?
Depois, entendeu. As lacunas do seu mundo é que lhe permitiram ver. Tem gente que não tem lacunas,
parece que a vida veio pronta e resolvida (tinha uma inveja danada dessa
gente!). È que para preencher esses vazios é preciso algo sob medida.
Só vestia nela, em mais ninguém. É assim: há pessoas que cabem
certinho na gente.
Nunca mais os dias foram os
mesmos. Nem os caminhos. Nem nada que por eles passa. Já não tinha setas. As linhas da estrada se apagaram. E o brilho dos olhos
continua a lhe desassossegar...
Vai se reconstruindo, mas “nada do que eu fui me veste agora” . Vem aprendendo a viver com essa inquietude.
Não almeja mais certezas, somente as provisórias. Não sonha mais com
estradas sinalizadas, repletas de contornos. Sabe que os encontros são
muitos...
De vez em sempre, respira fundo (a
lembrança ausente daqueles olhos lhe dói o peito). Mas encontra beleza na
impossibilidade...
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