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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sem título


Pronto. E tenho um sentimento novo que inaugurastes, outra vez, em mim: mágoa.
Tens o trofèu. 
Sem celebração e sem vitória.
Apenas a tristeza doída. 
Apenas.




Assim seja





Aos Céus só um pedido: coragem para que o meu coração seja límpido como riacho cristalino, que as águas turvas não o arrebatem do curso das águas que confiam.





Prece da manhã





Oh Senhor!
Envie ajudinha extra
Provimentos de emergência
Batalhão reserva
Qualquer coisa pra lutar...
Hoje será penitência
e não posso fraquejar!


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Luz azul




Desenhei uma luz azul
e mantenho-na diante do olhar.
Embebedo minha pele de Light Blue
e o perfume alerta-me: caminhar!
A estrada é longa e se adianta.
Para que me serve a estrada?
Para esperançar!



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sobre o meu silêncio



Como quem contempla o sol
A se esconder no horizonte
Como quem contempla o mar
A beijar a areia à espera
Como quem contempla a chuva
Que cai sem pedir licença
Respeitosamente
Silenciosamente
Resignadamente
Contemplo a vida tua.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Salvação




A poesia me salva. 
Do cansaço da alma, da desistência, do abandono de mim. 
É como luz que não me deixa apagar.




domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sem titulo II




Assim como alguns bichos que se camuflam, o mimetismo será minha arma. 
Como o bicho-pau que, diante do perigo, permanece imóvel e recolhe as patas junto ao corpo, misturando-se aos gravetos das árvores.
Tentarei, como ele, permanecer indistinta ao mundo que me cerca. 
Serei um alvo de impossível reconhecimento.
Assim como a lua cheia, na sua fase mais bela e esplendorosa, se esconde durante o eclipse, entrarei na região da umbra.
Aos que me estranharem, peço perdão. Aos que julgarem egoísmo e prepotência, peço compreensão: é um apelo da razão e, contraditoriamente, do instinto. 
Ultimamente tenho falado demais, mesmo em estado de sobriedade. Porque já não consigo manter a polidez das frases amareladas que não causam espanto. Porque já não posso me manter impassível diante dos sentimentos que gritam. Porque estou em perigo.
Assim como a lagarta se mantém em seu casulo até o momento da liberdade, tomarei para mim uma pele sobreposta que me mantenha protegida.
Preciso criar asas coloridas.
Como tropas em desvantagem, retiro as bandeiras.
Instauro em meu mundo, ditadora de mim mesma, o toque de recolher.
Porque já não fico com os olhos úmidos, mas derramo lágrimas do corpo todo.






quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Enigma






Homem.
Sim. Homem como o meu corpo te percebe.
Nunca compreenderás a exata proporção do que vai em mim.
É de uma grandeza indecifrável.
E não se rende à compreensão.
Seria preciso sentir
na pele
nos poros
nas entranhas.


Foto> Juliana Cunha

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Luta

Eu fui
Desbravar a vida.
Abrir estrada
no escuro e na lida.
Espada e mão calejada
floresta intensa
mata densa.
Eu fui
Construir ponte.
Pinguela improvisada.
Achar a fonte
Beber de mim.
Eu fui
Povoar a terra.
Erguer mais simples morada
Procurar o ouro
Manejar a enxada.
Eu fui
Enfrentar a selva.
Sem armas, mas flores.
Nascida pra guerra
com todas as dores.
Eu fui.
Te levo comigo.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Cansaço








O que tenho em mim é cansaço.
Um cansaço absurdo de nada, de tudo e coisa alguma.
Apenas um CANSAÇO maiúsculo
de paixões intensas
de sentir o sem sentido
de choro doído ao entardecer
de sonhos impossíveis ao adormecer
da solidão - vão negro em mim.
Absurdamente
Tempestuosamente
Cansada.
Só e tudo isso.

foto: Juliana Cunha

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Re-colhimento





Recolhimento
Re-colhimento
Re-colher
Colher o que fui
Procurar a semente
Preparar a terra
Plantar o futuro
Aguardar a safra
Esperar o incerto
A semente de agora
Transgênica
Transformada
Pelo vento
Furacão
Turbulência
Será sol
Será mel
Será chuva
Será fel
Será flor
Será espinho?
Nebuloso
Caminho.

Foto: Juliana Cunha


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Soneto do Amor Perdido






Você não soube me amar, certamente
pelo redemoinho do mar incerto.
Você escolheu não  amar, exatamente
 quando o amor fez-se nu no deserto.

Você decidiu não amar, justamente
quando a beleza se deu mais clara.
Você não pôde amar tão somente
porque amor a dois é coisa rara.

Resta-me agora o amor perdido
E o coração pleno de cansaço
De um sentir tudo tão sem sentido.

Resta-me a redenção na guerra
A bandeira e a espada de aço
Perder é doce e renasce a terra.














sábado, 4 de fevereiro de 2012

Tempo





Pela manhã
Abraço o tempo
Ao entardecer
Abraço o tempo
Pela madrugada
Abraço o tempo.
Jamais pensei existir
Em substantivo abstrato
Algo tão corpóreamente concreto. 
É amigo que me salva...






foto: Jaqueline Guimarães











quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ternura









Ah....hoje eu decidi a coisa mais bela da minha pequenez de vida.
Eu decidi amar sem espera, sem esperança, sem recompensa.
Como é belo isso.
Como é paz, quietude, mansidão.
Como me faz melhor como gente essa experiência amorosa abnegada e livre.
Como pássaro azul voando em flor. Sem exigência.
Como é belo isso.
Eu contemplo o olhar atentamente, como se fosse a primeira vez.
E não preciso pedir perdão por amar demais.
É certo que às vezes eu choro.
O choro que lubrifica o coração. Assim ele jamais virará pedra.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vende-se, troca-se ou doa-se um coração.






Vende-se, troca-se ou doa-se um coração.
Um coração calejado, destroçado, pintado de curativos.
Insensato. matreiro, inconsequente.
Idealista, arrebatado, perigosamente sincero.
Um coração à moda antiga, quando a verdade valia o fio do bigode.
Feito de gelatina cor de amora e maria-mole com corante paixão - se recusa a virar pedra, gelo, ferro.
Nunca velho...sempre criança, pronto para aquele olhar de quem vê pela primeira vez.
Coração cego, surdo e mudo. Só sente o que pensa que existe.
Se recusa a perceber a maldade, a indiferença, a ilusão.
Vende-se, troca-se ou doa-se um coração.
Aceita-se na troca outro qualquer, menos o que já cristalizou - e sem armaduras.
Outro qualquer sem tanta história de queda.
Outro que caiu menos, que não subiu em árvores gigantescas fazendo pouco da altura.
Outro que nunca se jogou no precipício fazendo pouco do tamanho do vão escuro.
Vende-se, troca-se ou doa-se um coração
Que tenha pelo menos um pedacinho em branco
Onde se possa desenhar de novo o juízo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Nudez







Há insensata paz em desnudar a alma
Em desnudar-se
Corpo e espírito.
A paz dos que não trazem mistérios
Ou segredos
Palavra sem casca
Fratura exposta
Veias a olho nu.
Assim,
Sem vestes ou armaduras
É preciso ir.
Ir corajosamente
porque a verdade às vezes não basta.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Historinha




Um coração - dramático, arrebatado, sem aviso
Declara em tom grave, intenso:
_ Morreria pelo seu sorriso!
Os lábios respondem
Com inacreditável parcimônia:
_ Obrigado por me dizer.
Está feita a cerimônia.
Coração sem juízo - coitadinho
Fala o que a boca sente
Sente o que a boca fala.
Sem medo, sozinho.

Foto: Juliana Cunha

domingo, 22 de janeiro de 2012

Verbos






Despejar o vinho
Esvaziar o copo
Livrar o vaso das flores
Virar porta-retratos
Deletar mensagens
Rasgar bilhetes
Apagar memórias
Zerar quilometragem
Lavar a estrada
Viver sem nada
Exausta.

Foto: Juliana Cunha





sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ora vai, ora vem





Há despedidas que demoram uma eternidade.
É o coração ensaiando passos de dança
Ora vai, ora vem...
Hora vai, hora vem...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Beleza de gente



Se eu pudesse ter um luxo a mais nessa vida, tenho certeza de que  me daria uma pessoa.
Não uma pessoa qualquer, mas alguém com muita objetividade, vocação para a praticidade, organização metódica e muita, muita racionalidade.
Pagaria muito bem a este ser (se pudesse fazê-lo e se o encontrasse disponível).
Seria alguém para fazer coisinhas que detesto mas que nenhum mortal pode deixar de cumprir se desejar sobreviver nessa selva de pedra.
Tenho uma lista dessas tarefinhas ordinárias: ir ao supermercado (gosto é de ir na feira e comer pastel no fim, mas não tenho tempo), pagar as contas do mês, ir ao banco falar com o gerente, controlar o orçamento, pensar nas coisas que tenho que comprar, ir ao caixa eletrônico, etc.
Como todo mundo, precisei ir a esse negócio chamado caixa eletrônico. Fim de ano é uma festa: a gente vai comprando, gastando, presentinho pra cá, comidinha pra lá, pequenos gostos para alegrar o espírito da alegria que ronda essa época. Depois, no início do outro ano, o calendário virado nos diz que na festa da vida há outras coisas a enfrentar.
Fui lá me encontrar com essa máquina e me deparei com uma beleza de gente: a Dona Luzia. Não, eu não a conhecia. Mas ela se deu  a conhecer um pouquinho naqueles breves minutos.
Tem gente que parece levar o coração escancarado no peito, mesmo sob os tecidos que o cobrem, mesmo sob a pele que o aconchega. A Dona Luzia deve ser assim. Ao menos foi assim que eu a percebi.
Enfrentar foi o verbo que ela pronunciou quando se deu conta da minha presença.
"É minha filha, é preciso enfrentar os números que sairão nesse papel. Não tem jeito não, a vida obriga".
E eu me vi na Dona Luzia.
Começamos a traçar nosso diálogo sobre os enfrentamentos práticos da vida e a nossa comum ojeriza por tais coisinhas que rondam o chacoalhar de cada dia.
Lembrei agora dessa beleza de gente, dessa ternura de mulher. Desconfio que, como eu, ela tem coração feito de poesia. Tenho cá com os meus botões que, assim mesmo como eu, a Dona Luzia deve ter uma aptidão danada para o platonismo, para enxergar no que vê o invisível que ninguém vê.
Lembrei e fiquei arrependida de não ter perguntado uma coisa para essa pessoinha que parecia flor que nasce sozinha no meio do concreto.
"Dona Luzia, como a senhora fez  para conservar essa doçura toda até aqui e não endurecer esse coração de flor?"
Perdi a chance. Generosa como me pareceu, teria me ensinado. Agora, como estive desatenta e não agarrei o minuto, parece que a vida ficou me olhando ir embora. E eu continuo gostando nadinha dessa máquina que me obriga a enfrentar as coisas pequenas desse mundo.
E meu coração continua incorrígivel. Tem jeito não.

foto: Juliana Cunha